O carnaval de Walter Firmo
MAURO VENTURA
Walter Firmo fotografa o carnaval desde 1960, quando, aos 22 anos, assistiu ao desfile das escolas de samba, ainda na avenida Rio Branco.
– Samba, suor e rostos iluminados – lembra.
Lá se vão, portanto, 66 anos desde que estreou na folia como fotógrafo.

Desfile, blocos, bandas, bailes, tudo que se refere à grande festa popular já passou pelas câmeras de Firmo. Por isso, surpreende quando ele diz:
– Nunca gostei de carnaval.
Ele explica que é quieto. E diz o que o leva a registrar há tantos anos o carnaval:
– Sinto uma impulsão quando observo o povo alegre e soberbo na sua honradez profícua e generosa. Principalmente o desfile das escolas de samba. Quanto ensinamento, quanta evolução, postura e discernimento. Pura e divina emoção.

Apesar de quieto, Firmo tem em sua coleção particular fotografias marcantes de festas populares registradas por todo o Brasil, do carnaval do Rio ao bumba meu boi no Maranhão e ao maracatu e ao frevo em Pernambuco, como nas cenas abaixo:


Nos primeiros anos da carreira de fotojornalista, ele documentou muitas cenas de violência e de miséria.
– Fiz a minha cota de pessoas caídas no chão, de vagabundos. Mesmo em Brasília, quando a cidade estava sendo construída, havia uma série de contrastes inevitáveis, pessoas miseráveis lavando roupa em condições precárias enquanto palácios se formavam lá atrás – disse ele a Cora Rónai no “Álbum de Retratos”, coleção de livros dedicados a personalidades brasileiras.
Mas ele explica que sua preferência é outra.
– Eu não gosto da sordidez. Quero mostrar o sonho, a fantasia, o lado amável da realidade. Sou um brasileiro que quer mostrar uma população digna, eventualmente ingênua, mas sempre honrada.


Mas antes mesmo de 1960, quando estreou as câmeras no carnaval, Firmo já tinha registrado figuras fundamentais da festa, como Cartola, um dos fundadores da Mangueira – mesma escola por que torce Firmo. Ele tinha 15 anos e era aprendiz na “Última Hora” quando foi incumbido da missão.
Ao longo dos anos, ele documentou outros sambistas e figuras importantes da MPB, como João da Baiana, Clementina de Jesus, Pixinguinha, Ismael Silva, Araci de Almeida, Donga, Paulinho da Viola, Jamelão, Martinho da Vila e Carlos Cachaça.
– Esses personagens são de uma ribalta quase particular. Eles são lendários, ricos pela ternura e esperança, e eu os captei assim. Pelos meus sonhos de criança no subúrbio, consegui embrulhar os sonhos deles – explicou certa vez numa entrevista.
Esse “poeta do belo”, como já foi definido, há tempos se dedica à questão do negro. O cantor e compositor Nei Lopes disse, no documentário “Walter Firmo – Fotografei o Perfume”, de Ademir Ferreira: “Walter Firmo é o fotógrafo da gente negra do nosso país”.
O próprio fotógrafo explicou a Artur Tavares, no site Elástica:
– Meu mundo é esse aqui, da fantasia, ligado à questão de uma confraria racial da qual eu pertenço, incensados como totens do bem, trabalhadores, dignos. Porque minha maneira de falar através do silêncio das fotografias é fazer uma exaltação aos negros.
Ele reforçou esse pensamento em entrevista a Augusto Diniz, na Carta Capital:
– Fiz um arquivo fantástico de uma sociedade invisível, que era a sociedade negra. Eles eram meus ídolos. Tudo isso me fascinava.
Um exemplo é a foto abaixo, do carnaval no trem, tirada no Rio na década de 1990:

Desde 2018, o acervo de Firmo, com cerca de 150 mil imagens, está abrigado em regime de comodato no Instituto Moreira Salles.

Apesar do histórico folião, este ano ele estará longe do carnaval.
– Vou passar longe. Verei o desfile do samba carioca pela televisão.
Firmo viajou para o Piauí.
– Estarei por três semanas no delta do rio Parnaíba, comendo caranguejo, pescada amarela. Pelas manhãs, vou tomar café com tapioca nos braços da minha companheira Lili. E mergulhando nas praias de aguas mornas do lugar.
A seguir, mais fotos de Walter Firmo sobre o carnaval.
