Do lítio ao litígio
MAURO VENTURA
O Vale do Jequitinhonha, no Nordeste de Minas Gerais, concentra cerca de 85% das reservas brasileiras de lítio – mineral estratégico amplamente utilizado na fabricação de baterias para carros elétricos, celulares, satélites, armamentos e sistemas de armazenamento de energia. Vendida pelo governo estadual como “Vale do Lítio”, a região tornou-se peça-chave para a chamada transição energética.
Mas a busca pela economia “verde” e pela energia limpa embute uma contradição, segundo a fotógrafa e documentarista mineira Isis Medeiros: se na teoria faz todo sentido a aposta na sustentabilidade, na energia renovável e na atenuação dos problemas climáticos, na prática a mineração tem impactado de forma violenta as comunidades locais, os povos quilombolas e os indígenas, com efeitos como degradação ambiental, pressão sobre recursos hídricos e ameaças aos modos de vida rurais e tradicionais. Há uma tensão, já que essa atividade anunciada como parte de um futuro sustentável traz como consequência fortes impactos ambientais e sociais.
– Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto o avanço da mineração de lítio no Vale do Jequitinhonha, um território que aprendi a amar profundamente por sua cultura, pelas pessoas e pela força das comunidades que vivem ali – observa Isis.
O impacto na vida dos moradores
Isis, que tem uma página dedicada a seu trabalho neste site Testemunha Ocular, complementa:
– O que me inquieta é ver como essa nova corrida mineral pelo chamado “ouro branco” tem sido apresentada como parte de uma “transição energética verde”, enquanto nos territórios, antes férteis, o que aparece são aumento da poeira tóxica, surgimento de doenças respiratórias, mudanças na dinâmica da água, assoreamento de rios, desertificação, morte da fauna e da flora, detonações, barulho, trepidações no solo, destruição próxima das casas, circulação intensa de caminhões e de máquinas. Há um impacto direto na vida das pessoas.
Warley Gomes de Jesus, por exemplo, precisa escavar o fundo do rio Piauí na tentativa de bombear a pouca água restante no rio assoreado e contaminado pelos rejeitos da Sigma Lithium, enquanto a mineradora de lítio opera a cerca de 60 metros da margem.

Moradores relatam medo e insegurança diante do avanço das empresas e do agravamento das condições de saúde. Cleonice Patrícia tem sofrido na pele os efeitos disso. A água que antes vinha do rio e abastecia a comunidade foi substituída, em 2023, por caixas instaladas pela mineradora Sigma Lithium como contrapartida à exploração mineral na região. Desde então, diz Isis, centenas de famílias passaram a depender exclusivamente da água fornecida pela empresa, limitada a 500 litros por mês, independentemente do número de moradores por residência. As comunidades denunciam que o volume é insuficiente para suprir as necessidades básicas de um mês inteiro.

Cleonice também tem outras queixas. Em menos de dois anos de operação das mineradoras, sua casa, na comunidade de Poço Dantas, passou a apresentar rachaduras estruturais e risco de desabamento. Ela mora a cerca de 150 metros da atividade mineradora.

Por outro lado, em meio às muitas incertezas há uma expectativa de geração de emprego, de desenvolvimento e de melhoria de vida nesse Eldorado do Lítio. Isso levanta, diz Isis, algumas perguntas: mineração sustentável para quem? Como falar em mineração verde quando ela deixa rastros tão visíveis de destruição ambiental e de ameaça aos modos de vida locais?
Zonas de sacrifício
O resultado dessa inquietação e a necessidade de tornar visíveis histórias e conflitos que muitas vezes permanecem invisíveis para o resto do país levaram Isis a documentar esse processo enquanto ele ainda está em curso. O trabalho está na exposição “Zona de sacrifício: do ouro ao pó”, recém-inaugurada no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, Campus Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. O conceito “zonas de sacrifício” se refere a áreas onde a exploração econômica é priorizada em detrimento da vida e do meio ambiente. Em Minas Gerais, isso é particularmente sensível. Já são mais de três séculos de extração e duas das maiores tragédias ambientais do país: Mariana e Brumadinho. Isis também criou um um site sobre o projeto, que pode ser acessado aqui.

Imagens noturnas
A exposição, que tem curadoria de Carol Lopes, conta com fotos de uma série noturna intitulada “Lítio verde? – O progresso em pó”. Isis usa de forma irônica e crítica a expressão adotada pelas mineradoras para se referir à extração do mineral, que, diz ela, não tem nada de verde e sustentável.
– Nesta série, o uso de luz artificial dialoga com o imaginário tecnológico associado ao lítio, considerado o “mineral do futuro”. Ao introduzir cores luminosas e uma estética tecnológica na paisagem do sertão mineiro, as fotografias tensionam o discurso do chamado “lítio verde” e revelam as estratégias de marketing que acompanham essa nova fronteira de extração.
No alto desta página e mais abaixo estão algumas fotos dessa série.
Velocidade das mudanças
Entre 2021 e 2023, os pedidos de pesquisa mineral na região saltaram de 417 para 1.570, enquanto os requerimentos de pesquisa e lavra cresceram mais de 500%, totalizando quase 9 mil processos minerários. De acordo com Isis, a velocidade com que as atuais mudanças estão chegando faz com que não haja tempo suficiente para o debate público sobre os efeitos de longo prazo do processo de exploração na região.
– A transição energética é necessária e urgente para a diminuição de gases poluentes na atmosfera, mas ela não pode repetir as mesmas lógicas territoriais dos ciclos extrativos anteriores. Conciliar essas dimensões passa por ampliar o debate público, garantir transparência sobre os impactos da mineração e reconhecer o papel das comunidades diretamente afetadas nas decisões sobre o futuro dos seus territórios. Mais do que uma mudança tecnológica, a transição energética é também uma escolha política sobre quais territórios sustentam esse processo, e em que condições e como é possível uma transição energética que traga benefícios sociais.
Ou seja, passa pela pergunta de que futuro o Brasil está criando para si. Segundo Isis, um que respeite os interesses populares e colabore para a melhoria de vida das pessoas, em vez de ser apenas greenwashing – estratégia de marketing na qual empresas promovem seus produtos como ambientalmente responsáveis sem cumprir os critérios reais de sustentabilidade.
Serviço:
Exposição: “Zona de sacrifício: do ouro ao pó”
Local: Casarão do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (Campus Araçuaí), Araçuaí (Estrada São José do Caraí, nº 385 – CEP 39.606-270 – Bairro Universitários)
Período: até 30 de abril. Integrante do Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, o projeto também prevê a circulação da mostra por outras cidades brasileiras ao longo de 2026
Horário de visitação: das 9h às 19h
Entrada franca
A seguir, mais fotos da exposição “Zona de sacrifício: do ouro ao pó”:

