A cronologia de um golpe fracassado
MAURO VENTURA
“Juízo final: tentativa e fracasso do golpe no Brasil”, de Gabriela Biló, pode ser lido de várias maneiras. Como um documento histórico em defesa da democracia. Como uma síntese em forma de imagem e texto sobre a trama golpista. Como um manifesto estético, uma colagem simbólica do esforço coletivo para interpretar o país.
É um livro que condensa em fotos reveladoras e num texto afiado todo o risco pelo qual o país passou a partir de 2019. A obra começa no dia 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram e vandalizaram os prédios dos três poderes da República – o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF).
De folga naquele domingo dia 8, a fotojornalista viu as imagens pela TV, pegou sua câmera e seguiu para a Esplanada dos Ministérios. Assustou-se com o cenário de destruição. Seu sentimento foi de luto, ao ver um cenário tão familiar – ela trabalha nos corredores do poder – completamente desfigurado.

No prefácio, o escritor Marcelo Rubens Paiva fala das imagens que ela fez no dia 8: “O país assistiu incrédulo. a realidade resolveu brincar de distopia. Que bom que as imagens de Gabriela Biló nos provam que sim, aconteceu. entulharam móveis, fanaram a Constituição, picharam a escultura da Justiça. E, no ápice, trataram a democracia como descartável. Jogaram fora cadeiras, símbolos, quebraram vidraças. Depredaram os Três Poderes, para um projeto de destruição.”
Biló segue a cronologia. No dia seguinte à destruição dos prédios, 9 de janeiro, têm início as investigações que levariam à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas, à medida que avança no tempo, ela também recorre a flashbacks para que o leitor perceba como, na verdade, aquele dia da infâmia não teve nada de espontâneo. Foi o clímax de um enredo gestado desde que Bolsonaro assumiu o poder, o desfecho de um plano meticulosamente alimentado pelo ex-presidente.
Jair Bolsonaro durante o julgamento da tentativa de golpe de Estado. 9/7/2025
Somos lembrados ainda como, muito antes disso, em 24 de maio de 1999, o então deputado federal do chamado baixo clero disse em entrevista à TV Bandeirantes o que faria caso eleito presidente. “Daria golpe no mesmo dia”, respondeu.
Não tentou no primeiro dia em que tomou posse, mas passou o mandato disseminando fake news sobre as urnas eletrônicas, desacreditando o sistema eleitoral, atacando o STF, insuflando seus seguidores contra as instituições. A 10 de agosto de 2021, no dia da votação da PEC do Voto Impresso (Proposta de Emenda à Constituição 135/19), o comandante da Marinha, Almir Garnier, organizou um constrangedor desfile de tanques em frente ao Congresso Nacional, no que muitos interpretaram como uma tentativa de forçar o Congresso a aprovar o texto – que acabou derrotado pelos deputados federais.
Tanque solta fumaça em desfile na Esplanada dos Ministérios – O Estado de S. Paulo. 10/8/2021
A maioria das mais de 80 fotos são em preto e branco. A ideia é remeter à memória, evocar o passado e dar mais um tom mais sóbrio a um assunto tão grave. Além das fotos, Biló assina o texto, com edição de Fernando de Barros e Silva.
Junto com as imagens, há uma iconografia que inclui prints das conversas dos golpistas e da agenda do general Augusto Heleno, e a reprodução da minuta do golpe. Acompanhamos passo a passo, em detalhes, a sequência de fatos que levou à condenação de Bolsonaro e à sua prisão.

A primeira página do livro traz um QR Code que permite acessar um audiobook feito por Cristiano Botafogo e Pedro Daltro, do podcast Medo e Delírio em Brasília. Os dois foram parceiros de Biló em sua obra anterior, “A verdade vos libertará”, que ganhou o prêmio Jabuti na categoria Arte.
“A verdade vos libertará” termina no dia 8 de janeiro, e “Justiça final” começa aí, mas um não é continuação do outro. O atual é compacto, tem um formato menor, fácil de carregar, é uma espécie de “miniBíblia da trama golpista”, nas palavras da fotógrafa da Folha de S. Paulo, que tem uma página dedicada a seu trabalho neste site Testemunha Ocular.
A inspiração para o título do livro veio da Bíblia. Bolsonaro, que sempre instrumentalizou a religião, acabou tendo que prestar contas de seus atos. Em seu texto, Biló recupera todo o julgamento que condenou o ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão. A certa altura, ela escreve: “Pela primeira vez, a Corte enfrentou diretamente uma tentativa de ruptura democrática protagonizada por atores centrais do Estado. Os votos (dos ministros do STF) ressaltaram a existência de uma organização criminosa que não aceitava a alternância de poder e que havia buscado romper a ordem constitucional por meio de desinformação, pressão institucional e violência planejada.”
Celso Villardi, advogado de Jair Bolsonaro, em coletiva de imprensa. 2/9/2025
O livro acompanha a prisão “em parcelas” de Bolsonaro. Primeiro, a inegebilidade e a entrega do passaporte. Depois, a tornozeleira eletrônica e o toque de recolher. Em seguida, a prisão domiciliar, após a tentativa de rompimento da tornozeleira. A obra termina em novembro de 2025 com uma imagem histórica: Bolsonaro sendo transferido para a Papudinha, em Brasília – uma foto que Biló levou quarenta horas para conseguir fazer.

Serviço:
Livro “Juízo final: tentativa e fracasso do golpe no Brasil”
Fotos de Gabriela Biló. Texto de Gabriela Biló, com edição de Fernando Barros e Silva. Prefácio de Marcelo Rubens Paiva. Design de Pedro Inoue. Audiobook de Medo e Delírio em Brasília. Organização da Daniel Lameira
Editoras Fósforo e Seiva
Preço: R$ 79,90 (192 páginas)
Lançamentos:
São Paulo: 11 de abril, às 16h, na Livraria Megafauna (av. Ipiranga, 200 – loja 53 – Centro Histórico de São Paulo)
Brasília: 16 de abril, às 19h, no Paradeiro
Rio de Janeiro: 25 de abril, às 16h, na Livraria Janela
Belo Horizonte: 26 de maio, às 19h, na Livraria Jenipapo
A seguir, mais fotos do livro “Juízo final: tentativa e fracasso do golpe no Brasil”:

