De olho no mundo
MAURO VENTURA
Em mais de 50 anos de profissão, Pedro Martinelli percorreu boa parte da Amazônia, fotografou anônimos e celebridades, esteve em cinco copas do mundo, documentou tragédias e revoluções, correu riscos de vida, mirou suas lentes em papas e presidentes, acompanhou o glamour das modelos e o duro cotidiano das trabalhadoras da Usina Hidrelétrica de Turucuí. Circulou por todas as áreas da imprensa, seja no esporte, na moda, na cultura, na economia e na política, como quando registrou o beijo que o então presidente, o ditador Emílio Garrastazu Médici, deu numa menina que o havia presenteado com um buquê de flores.
Essa trajetória intensa e premiada, admirável e abrangente pode ser conhecida melhor no recém-lançado “Olho no mundo – Memórias do fotógrafo Pedro Martinelli”, escrito pelo jornalista Carlos Maranhão, e na exposição individual “O tempo e o Pedro”, em cartaz na galeria Mario Cohen, em São Paulo.
– É um livro de memórias, que traz a história pessoal de Pedrão, além de bastidores da imprensa e do fotojornalismo – define Maranhão, que conhece Martinelli, ou Pedrão, como dizem os amigos, desde que trabalharam juntos na revista Veja, no fim dos anos 1970.

O leitor acompanha a trajetória de Martinelli desde o início da carreira, em A Gazeta Esportiva, quando trabalhava no laboratório fotográfico. Num domingo, um dos fotógrafos da equipe faltou e ele foi enviado para acompanhar dois jogos no interior de São Paulo. As fotos foram publicadas e ele não parou mais.
Além das fotos, o livro traz recortes dos ensaios, matérias e reportagens. Na Copa do Mundo de 1970, já como estagiário do Diário do Grande ABC, recebeu uma tarefa que hoje soa impensável: fotografar os jogos da seleção brasileira pela televisão, já que o jornal não tinha dinheiro para comprar material das agências. Suas fotos da final contra a Itália chegaram a estampar quatro páginas do veículo.

Numa certa época, foi escalado para cobrir um acidente que resultou em morte. Curioso, ficou ao lado do fotógrafo da perícia. Interessado no assunto, largou o jornal e passou seis meses trabalhando na Polícia Técnica, sem ganhar nada. Acompanhava assassinatos, suicídios, desastres de trânsito. “Aprendi muito naquele trabalho e perdi o medo de ver pessoas que haviam sido mortas. Também tínhamos que fotografar no necrotério, onde eu me deparava com pilhas de cadáveres, identificados com uma etiqueta amarrada no dedão do pé. Era um negócio dantesco. Mas foi uma escola e tanto”, conta.
O papa e o cachorro
O livro é uma aula de fotojornalismo e descreve bem o modo de Martinelli atuar. Num trecho, ele explica que o instinto faz com que primeiro bata as chapas para só depois se apresentar. “O papel do fotojornalista é fotografar o que precisa ser fotografado. Se autorizam, ótimo. Se não autorizam, dá-se um jeito.” Em outro momento, ele reforça: “Não adianta você ser um grande fotógrafo se não for um sujeito ousado, safo, descolado, entrão, até meio bandido e capaz de resolver qualquer tipo de problema com presença de espírito. Além de ter sorte.”
Um exemplo aconteceu quando, na Praça de São Pedro, no Vaticano, tomada por milhares de pessoas em estado de choque com a morte do papa João Paulo I, Martinelli foi abrindo caminho e conseguiu fazer uma única chapa, registrando o corpo do pontífice. Pena que a foto não tenha sido publicada, para sua decepção. Segundo a chefia da Veja, o rosto do papa, que provavelmente fora embalsamado, estava verde. Ele nunca entendeu essa alegação: “O papa está verde”.
Mas Martinelli teria a chance de fotografar outro papa, o sucessor de João Paulo I, em Brasília. Para mostrar que João Paulo II estava no Brasil, conseguiu fazer uma foto em que, ao lado do papa, ao fundo, havia uma bandeira nacional. A Veja publicou a imagem em página dupla apenas com o título – “O papa no Brasil” – e a legenda. Em outro momento, aproveitou a presença de um cachorro para registrar o olhar do pontífice para ele.
Outro ponto de vista
Ele explica: “O fotógrafo de revista não pode cobrir o factual, ou seja, o que todo mundo está fotografando, principalmente os profissionais dos jornais que publicarão as fotos no dia seguinte. A revista, muitas vezes, sairá uma semana depois, daí a preocupação em mostrar outro ponto de vista e fazer com que a história seja mais durável.”
Foi assim que, na Copa de 1982, na Espanha, preferiu se posicionar na lateral do campo. Com isso registrou o momento em que Zico e Junior comemoram o segundo gol do Brasil contra a Nova Zelândia. O craque do Flamengo saiu para celebrar com o banco de reservas no meio do campo, ao contrário da maioria dos jogadores, que iam para a torcida. O jogo de cintura está mesmo presente em toda a carreira, como quando pedia para os jogadores que saíssem em sua direção ao comemorar o gol. Estabeleceu com Sócrates, por exemplo, essa cumplicidade, dando em troca cigarros que o craque lhe pedia na saída dos treinos.

Nas Olimpíadas, ele também recorria aos presentes para conseguir se aproximar de autoridades responsáveis por credenciais de fotógrafos. Nos Jogos de Los Angeles, em 1984, comprou uma caixa de charutos, mas o americano que comandava as operações de imprensa respondeu: “Obrigado, eu não fumo.” Mas tanto insistiu que conseguiu a tão sonhada credencial. E com isso conseguiu registrar a final da corrida feminina dos 3 mil metros, que tinha como favorita a americana Mary Decker. Como sempre em busca de um ângulo inédito, em vez de focar na linha de chegada, optou por acompanhar a corrida de Decker. Na reta final, ela se enroscou nas pernas da competidora sul-africana e caiu no gramado. Ele foi o único a fazer a sequência histórica da queda.
Café de presente
Nos Jogos de Seul, em 1988, preferiu dar dois pacotes de café brasileiro ao diretor de imprensa – dessa vez os mimos foram aceitos. Também colaborou seu visual – gorducho, cabelão comprido, barba grande, aspecto meio de viking, meio de hippie -, que fez com que fosse fotografado por um jornal coreano numa matéria sobre tipos exóticos que circulavam no centro de imprensa. Graças ao café e ao aspecto físico, conseguiu, às vésperas da cerimônia de abertura, a credencial e pôde registar o momento em que o judoca Aurélio Miguel conquistou nossa única medalha de ouro.
Essa fuga do senso comum fez com que, por ocasião da eleição do papa João Paulo I, em vez de fotografar o ambiente inteiro da Capela Sistina preferisse se concentrar em detalhes, como a mesa de cabeceira do quarto que seria ocupado por um dos cardeais. Em cima dela, havia uma pequena luminária e um rolo de papel higiênico. “Foi uma vinheta que enriqueceu o portfólio. De certa forma, tratava-se do equivalente, na pintura, à natureza-morta.”

O livro revela as muitas estratégias que ele adotou como fotógrafo. Martinelli desenvolveu técnicas para fazer o que chama de “fotos roubadas”, isto é, de gente que não se deixava fotografar ou de cenas que não podiam ser registradas: em vez de levar a câmara ao rosto, deixava-a pendurada no pescoço, na altura do peito, e tossia na hora de apertar discretamente o botão com o polegar.
Foram muitos os momentos em que se valeu de criativas artimanhas. Como quando, na ditadura militar, cobriu a operação Chacina da Lapa, em que agentes da repressão mataram dirigentes da esquerda. Ele narra: “Fotografei o que foi possível. Nesse dia, me vali de um truque que conhecia. Tirei o filme da máquina e o deixei escondido numa sarjeta. Coloquei outro e bati umas dez chapas ao acaso, para entregar à polícia caso me pedissem. Faria isso algumas outras vezes. Guardei o local na cabeça, cobri o filme com algumas folhas, como os bichos que enterram alimentos, e mais tarde fui resgatá-lo. Levado ao Dops, eu seria liberado depois de umas quatro horas. Tive sorte e não sofri nenhum tipo de violência. Corri um risco enorme. Se tivessem encontrado o meu filme, não sei, sinceramente, o que teria acontecido comigo.”
No depoimento a Maranhão, ele conta outros perigos pelos quais passou, como na Revolução Sandinista, na Nicarágua, que derrubou o ditador Anastasio Somoza. Numa ocasião, o carro em que estava sofreu uma emboscada e foi atingido por franco-atiradores. Um das balas atingiu a coluna do automóvel e quase o acertou. Em outro momento, em meio a um fogo cruzado, o avião em que estava foi atingido. E, mais tarde, uma bomba explodiu perto dele, fazendo com que voasse a cinco metros de distância, por causa do deslocamento do ar.


Com muita franqueza, Martinelli revela como a paixão pela profissão fez com que negligenciasse a vida familiar e as amizades: “Viajava com tanta frequência que, na prática, deixei de ter endereço fixo. Os amigos se queixavam que eu desaparecia. Na verdade, eu só trabalhava. Por isso mesmo, descobri que não podia ser um homem casado e abri mão da paternidade. Nunca tive filhos. Vivia, como sempre, uma rotina maluca.”
Nessas cinco décadas de carreira, ele conviveu com colegas igualmente geniais, como JB Scalco, Erno Schneider, Hélio Campos Mello, Ricardo Chaves, o Kadão, Walter Firmo, Orlando Brito, Sebastião Salgado, Reginaldo Manente, Sebastião Marinho, Jorge Araújo, Alberto Ferreira, entre tantos outros grandes nomes da fotografia brasileira. Suas maiores influências estrangeiras foram Robert Frank, Henri Cartier-Bresson, Irving Penn e Richard Avedon – que, por sinal, ele fotografou em um carnaval no Rio.
Mulheres peladas
Com humor, conta de sua época como fotógrafo da Playboy, o que seria o sonho de muitos profissionais. Mas, em vez de registrar as estrelas, em geral clicadas por JR Duran e Bob Wolfenson, cabia a ele apenas aquelas “celebridades” instantâneas, mulheres que se destacavam num determinado momento e logo saíam de cena, como a modelo Cida Marques, a apresentadora de tevê Celene Araújo, a ex-namorada de Renato Gaúcho Solange Gomes, além de Cristina Mortágua, que teve um filho com o atacante Edmundo. Uma que ele fotografou e resistiu mais tempo debaixo dos holofotes foi Carla Perez, uma das louras do É o Tchan!.
Histórias curiosas e engraçadas se misturam no livro com passagens dramáticas. Uma das coberturas mais traumáticas de que participou foi o incêndio do edifício Joelma, que deixou 187 mortos.
Ele conta que até hoje tem lembranças do episódio: “Muito de relance, vi um vulto caindo lá de cima. Levantei a Nikon com a mão direita e fotografei por instinto, sem olhar o visor, ainda correndo, no preciso momento em que aquela vítima despencava do prédio. Fiz a foto em que o corpo parece parado no ar. Dei o que a gente chama de tiro, sem saber se acertaria ou não. (…) Só soube o que tinha conseguido quando o filme foi revelado. Foi uma emoção indescritível. A foto saiu no jornal no dia seguinte e seria reproduzida muitas vezes, inclusive em um dos meus livros. Eu me apavorava com o barulho dos corpos caindo no chão. O som era uma coisa tenebrosa. Está na minha cabeça até hoje. Ainda guardo também o cheiro da fumaça. Mas mantive a frieza indispensável para fotografar.”

Mas as maiores aventuras foram vividas na Amazônia. A começar por sua foto mais famosa. Tinha 22 anos quando foi pela primeira vez à região, para acompanhar a expedição dos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas que buscavam contato com os indígenas da etnia kranhacãrore, também conhecidos como paranás.

Foram dois anos de espera. Até que, em fevereiro de 1973, do meio das árvores, finalmente um indígena apareceu, segurando uma flecha comprida, antes de sumir rapidamente de novo. Ele aproveitou a chance. “A foto ficaria impecável, com uma contraluz maravilhosa, foco perfeito, nenhum tremido na imagem. Foi uma chapa só. Não houve uma segunda ou terceira na sequência”, diz.
Mas quase perde tudo. A canoa onde estava balançou e virou. Caiu com a câmera, a mochila e todos os filmes, que foram parar no fundo do rio. “O pânico tomou conta de mim. Na minha cabeça, estava tudo acabado. Tal era o meu transtorno que pensei em largar a profissão de fotógrafo, virar sertanista e nunca mais voltar para a cidade. Ao fim daqueles mais de dois anos, meu trabalho fora, literalmente, por água abaixo. Eu chorava. Não sabia o que fazer.” Os filmes foram resgatados da água. E felizmente a imagem que realmente interessava, a do indígena, conseguiu ser salva depois pelos funcionários do laboratório do Globo (veja a foto no alto da página). Além de estampar a primeira página do veículo, passaria a ser reproduzida inúmeras vezes no jornal e em livros.
– Foram dois anos, inteiramente bancados pelo jornal – incluindo aí salário, roupas, remédios, filmes, aviões fretados -, para fazer uma única foto! – diz Maranhão. – Impossível comparar com os dias atuais.
Genitália escondida
Martinelli lamenta, porém, que, por determinação da censura, a foto tenha sido publicada com um “retoque meio grotesco” para cobrir os órgãos genitais do personagem. Junto com a imagem publicada na primeira página da edição de 11 de fevereiro de 1973 havia o seguinte texto: “O Globo foi o único jornal a documentar o encontro da paz com os krain-a-kore (na verdade, kranhacãrore, mais tarde identificados corretamente como panará), às margens do rio Peixoto de Azevedo. Dentro da canoa que levou os Villas-Bôas ao ponto onde estavam dois índios da tribo dos gigantes, o fotógrafo Pedro Martinelli fez um documentário completo de todos os lances – alguns dramáticos – que culminaram com a confraternização entre índios e brancos. Suas fotos mostram a imagem verdadeira dos Krain-a-Kore: altos, fortes, o físico bem proporcionado, os belos traços, o corpo pintado de preto.”

A aventura não foi isenta de perigos: pegou malária no mínimo dez vezes e emagreceu mais de 20 quilos. Mais tarde, ele passaria dez anos na Amazônia, entre idas e vindas, para uma extensa documentação sobre a região. “Me transformei em um outro tipo de profissional. Mergulhei na minha paixão pelo mato – prefiro chamar de mato, não de selva, floresta ou Amazônia –, em busca de um mundo novo. Não mais a cobertura jornalística, mas a necessidade de registrar pessoas, coisas ou cenários que talvez deixem de existir. Minha forma de preservá-la, antes de desaparecer, era fotografar.”
O resultado foram dois livros. O primeiro, “Amazônia – O povo da águas”, mostra como nasce, vive e morre a população ribeirinha. O segundo, “Mulheres da Amazônia”, trata das caboclas. “Fiz descobertas, para mim, extraordinárias. Na Usina Hidrelétrica de Tucuruí, uma das maiores do Brasil, no Rio Tocantins, havia duzentas mulheres trabalhando em sua construção”, diz.
Exposição mostra diálogo entre dois temas
A Amazônia também está presente na mostra em cartaz na Galeria Mario Cohen. Mas de outra forma. Com texto de apresentação de Leão Serva, a exposição faz um recorte da obra de Martinelli. As 22 fotografias aproximam dois momentos fundamentais da produção do fotógrafo. De um lado, um ensaio feito em 1991 nos hangares da Varig, dedicado à aposentadoria dos aviões Lockheed L-188 Electra da ponte aérea Rio-SP. Esse projeto acabou interrompido e ficou guardado no arquivo de Martinelli. De outro, imagens produzidas na Amazônia.
A ideia da exposição partiu de Mario Cohen, que convidou Martinelli para revisitar o conjunto de imagens dos aviões e percebeu afinidades inesperadas entre elas e aquelas produzidas na Amazônia, como a baixa luminosidade, o longo tempo de exposição e a “recorrência de imagens circulares, como hélices ou cabeças de rebites e o polvilho no forno de beiju indígena”, explica Serva. Os dois exemplos abaixo mostram as similaridades:


Aos 76 anos, Martinelli parou faz tempo de fotografar profissionalmente. “Nem me lembro da última foto que fiz por encomenda. Acho que foi há uns dez anos”, diz no livro. “De um lado, revistas e jornais impressos perderam relevância. São poucos os órgãos de imprensa que ainda mantêm equipes de fotógrafos. De outro lado, perdi o interesse em aceitar as pautas jornalísticas que me apresentavam, com pagamento baixo. Além disso, cansei de andar de cá para lá, sem parar, e de me estressar em aeroportos.”
Atualmente, o máximo que faz é fotografar com celular sua cachorra vira-lata Pretinha. “Nada a lamentar. Acho que, nos últimos cinquenta anos, fiz todas as fotos que queria.”
Serviço
Livro: “Olho no mundo – Memórias do fotógrafo Pedro Martinelli”
Texto: Carlos Maranhão
Fotografias: 189
Páginas: 168
Preço: R$ 120
Editora: Terra Virgem
Mais informações: [email protected]

Exposição: “O tempo e o Pedro”
Local: Galeria Mario Cohen
Período: 30 de maio a 24 de julho de 2026
Endereço: Rua Capitão Francisco Padilha, 69 – Jardim Europa – São Paulo- (11) 99124-1496
Horário de visitação: Terça a sexta, das 11h às 18h; aos sábados, das 11h às 16h
Entrada gratuita
Classificação etária: livre

A seguir, mais fotos de Pedro Martinelli no livro “Olho no mundo” e na mostra “O tempo e o Pedro”:

