Futebol: sonho e realidade
MAURO VENTURA
Oficialmente, Orlando Brito fotografou apenas a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, quando o Brasil foi tetracampeão. Mas, por conta própria, ele registrou durante mais de 30 anos o futebol país afora. Especializado na área de Política – fotografou todos os presidentes brasileiros a partir da ditadura, do general Castelo Branco a Jair Bolsonaro –, ele aproveitava as coberturas do poder para documentar cenas que mostram a paixão do brasileiro pelo esporte.
– Com o tempo, em meio às diversas pautas jornalísticas, meu pai percebeu que, independentemente do lugar onde estava, o futebol se fazia presente – conta Carolina Brito. – Anos depois, consultando seu vasto acervo, ele se deu conta de que havia juntado um material que ilustra nosso país na sua mais pura essência.
O resultado foi reunido no livro “Futebol do Brasil – Sonho e realidade”. Brito planejou o livro, editou as imagens e fez as legendas, mas não chegou a ver sua obra publicada, o que só aconteceu em fevereiro de 2024, quase dois anos após sua morte, em março de 2022. Foi uma edição limitada, e Carolina busca agora patrocínio para uma reedição. O posfácio é dela, enquanto os textos de abertura são assinados pelo jornalista Fabio Altman e pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo.

No posfácio, Carolina diz: “As fotografias deste livro retratam um povo que precisa do futebol para sobreviver às mazelas de um Brasil carregado de dificuldades e disparidades, porém unido na vontade de vencer.”
O quinto e derradeiro livro de Brito – editado pela Almendina, todo em preto e branco, com 155 páginas – é uma bela homenagem ao futebol e uma celebração do amor pelo esporte mais popular do mundo.
Para além das grandes fotos de um dos maiores fotojornalistas da história do país, a grande sacada do projeto é o diálogo entre sonho e realidade. Ou seja, o contraponto que é feito entre os grandes estádios, os ídolos e o futebol-espetáculo, de um lado, e os campos improvisados, os peladeiros anônimos e os jogos de várzea, de outro. Tanto que o formato do livro é horizontal, para permitir as fotos estarem lado a lado e se encaixarem e se complementarem.
– Meu pai percebeu que dava para fazer a antítese entre essas duas histórias, entre o sonho e a realidade do futebol. O sonho é o lugar onde milhares de brasileiros desejam estar, seja em campo, como jogadores de reconhecimento mundial, ou nas arquibancadas, assistindo aos grandes clássicos de seu time de coração. A realidade é o futebol de várzea, das periferias, das ruas e da paixão popular. Aquele que enfrenta dificuldades, mas que não mede esforços para acontecer.
Essa “conversa” perpassa toda a obra. Ora vemos um professor de futebol, seu Luiz, ensinando alunos em Teresina, no Piauí, ora vemos o treinador Celso Roth, do Atlético Mineiro, orientando os jogadores do time profissional.


São muitos os exemplos de contrastes e semelhanças. Se Brito via um garoto jogando no interior do Maranhão fazia depois um craque na mesma posição no Maracanã. Registrava um menino celebrando um gol e mais tarde retratava um jogador profissional comemorando seu chute certeiro. E assim ia mostrando similaridades entre esses dois universos paralelos, mas complementares.
– Ele ia fazer uma campanha de um candidato em Recife e via uns meninos jogando bola na praia. Fotografava. Depois encontrava a mesma cena no estádio em Brasília. Também fotografava – conta Carolina.


Essa dupla exposição aparece a todo momento, como quando ele mostra que a paixão pelo futebol passa de geração em geração. Numa cena, vemos pai e filho jogando futebol de botão. Na imagem seguinte, outro pai e filho estão brincando num campinho.


Da mesma forma, vemos um goleiro num campo enlameado em São Luís do Maranhão e depois outro, num gramado oficial no Distrito Federal, mostrando que a paixão pelo esporte nivela os brasileiros.


Em certo momento, aparece a seleção olímpica que disputou os Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996, com Bebeto, Ronaldo e Roberto Carlos, e logo depois surge nas páginas um time de peladeiros do sertão do Piauí. Da mesma maneira, Brito revela as frágeis luminárias e o luar que trazem um pouco de luz a um gramado em Juazeiro, e os potentes refletores que iluminam o estádio do Mineirão.


É como diz Altman no livro: “Se há a rede limpinha e bem tramada, há também a confusão de fios embaralhados da várzea. Se há o ônibus refinado de uma seleção ou de um time rico da Série A, havia também o carro de boi conduzido por um cidadão com camisa de futebol carcomida pelo tempo. A pelota de grife e a pelota desgastada, quase murcha.”


Brito não deixou de lado nenhum aspecto relacionado ao universo futebolístico. Há as torcidas organizadas e os torcedores; os troféus, as chuteiras e as camisas da Seleção e dos clubes; os árbitros; as contusões; as promessas pela vitória de seu time.
Entre as 309 fotos, aparece o vascaíno Brito com Pelé em dois momentos: em 1965, antes de um amistoso, quando o rei tinha 25 anos e o fotógrafo, 15, e os dois décadas depois, engravatados, em Brasília. Há muitas outras estrelas nas páginas do livro, como Garrincha, Domingos da Guia, o goleiro Barbosa, Leônidas da Silva, Vavá, Nilton Santos, Bellini, Neymar, Ronaldo e Romário. Numa cena, vemos Vampeta rolando na rampa do Palácio do Planalto. Depois, vemos como aquela cena foi reproduzida pelo resto do país.


Para Carolina, o trabalho vai além do registro de cenas do esporte, tornando-se um retrato do futebol na alma dos brasileiros.
– Mais do que um livro, trata-se de um documento histórico e social sobre o papel do futebol na identidade brasileira. É um material que ilustra nosso país na sua mais pura essência. Desde os grandes palcos até os campos improvisados, onde o futebol nasce, resiste e emociona. O livro não promove apenas o futebol-espetáculo, ela valoriza o futebol como patrimônio cultural do Brasil e o define como uma experiência humana. Apresenta o esporte como sonho de ascensão, ferramenta de inclusão e expressão cultural e confirma que, acima de tudo, é a linguagem universal de nossa nação.

A seguir, mais fotos do livro “Futebol do Brasil – Sonho e realidade”:

