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A força e a urgência das ruas

MAURO VENTURA

Ao longo dos anos, as ruas de São Paulo têm sido palco das mais variadas manifestações sociais, culturais e políticas. E ninguém tem retratado melhor essas cenas do que Sato do Brasil, que, desde 2015, sai a campo com seu celular para registrar a ocupação do espaço público.

Na exposição “No olho da rua”, em cartaz no Memorial da Resistência, o espectador vai encontrar os protestos contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a batalha pela demarcação das terras indígenas, a crítica à condução do governo Bolsonaro em relação à pandemia da Covid, o Movimento Passe Livre, a luta contra a redução da maioridade penal, a indignação pelo assassinato de Marielle Franco, a revolta contra as reformas trabalhista e da Previdência, o grito por melhores condições de trabalho dos motoristas de aplicativos, os atos pelo Dia Internacional da Mulher.

Manifestação “8M” (Dia Internacional da Mulher). Avenida Paulista, 8 de março de março de 2017

Nas ruas e no ambiente virtual

A curadora da mostra, Juliana Caffé, fala sobre o diferencial de Sato:

– Não são fotografias produzidas por alguém que observa os acontecimentos à distância. São imagens feitas de dentro das manifestações, em tempo real, com o celular, pensadas para circular imediatamente pelas redes e disputar visibilidade em um ambiente marcado pelos algoritmos e pelas narrativas da grande imprensa.

Ela diz que hoje a disputa de narrativas se dá simultaneamente em duas esferas. A transformação social continua dependendo da “presença e do corpo coletivo nas ruas”, mas o registro dessas imagens alimenta em seguida o ambiente virtual. E a estética de Sato leva isso em consideração.

– A saturação das cores, os enquadramentos, a proximidade dos corpos e o dinamismo da composição não são apenas escolhas formais. Fazem parte de uma linguagem visual construída para circular, captar a atenção e ampliar a potência dessas mobilizações também no ambiente digital – diz Juliana.

Juliana Caffé e Sato na abertura da exposição “No olho da rua”. Foto: Beto Assem/Acervo Memorial da Resistência de São Paulo

A voz e a câmera dos injustiçados

Fotojornalista, artista, arte educador, diretor de arte, designer gráfico e cineasta, Sato, de 58 anos, é uma referência no fotoativismo de São Paulo. Ele já contribuiu com diversos coletivos e movimentos, como Jornalistas Livres, casadalapa, Frente 3 de Fevereiro, Ocupe a Mídia, Aparelhamento, Birico Arte, Condô Cultural, Cordão da Mentira, Biricar, Nós Artivistas, Revolução Periférica e Jornal Empoderado. Ele diz o que vê de diferente em seu trabalho.

– A mídia tradicional mostra tudo de fora, lá de cima, onde nem tudo se revela, onde tudo se confunde. A mídia independente desce para o chão, mostra as caras, as fisionomias, traz a palavra, o descontentamento, a raiva, a luta. Por isso, a grande mídia fala “vandalismo” no lugar de “descontentamento”, “depredação” em vez de “raiva”, “invasão” em substituição a “ocupação”. A grande mídia “reflete” o poder, enquanto a mídia independente “incorpora” a voz dos injustiçados.

Essa é a primeira individual de Sato. A ideia surgiu durante a pesquisa que Juliana fez para a exposição “Construction, Occupation”, que esteve em cartaz de maio de 2025 a janeiro de 2026 no Fowler Museum, em Los Angeles. A mostra reuniu fotografias, esculturas, instalações, vídeos, livros e cartazes de 24 artistas e coletivos de São Paulo e de Los Angeles para refletir sobre como a arte reinventa a cidade por meio da ação coletiva.

Olhar singular

Durante as visitas ao arquivo de Sato para selecionar imagens da Primavera Secundarista que integraram a exposição em Los Angeles, ela percebeu a dimensão do material que ele havia feito em dez anos. Também chamou sua atenção a forma como ele se relaciona com os coletivos, acompanhando suas trajetórias, estando próximo das pessoas retratadas e sabendo o contexto de cada acontecimento.

– Essa inserção nas redes que ele fotografa confere ao seu trabalho um olhar muito singular. Ali ficou claro que existia um arquivo de enorme relevância histórica, política e visual que, embora muitas vezes visto de forma fragmentada, ainda não havia sido apresentado em sua amplitude. A exposição nasceu do desejo de tornar esse arquivo público e de construir uma leitura curatorial para um trabalho desenvolvido ao longo de muitos anos de presença nas ruas.

A mostra está dividida em quatro eixos, que retratam as diferentes formas pelas quais a sociedade civil se manifesta no espaço público: Encontrar, Ocupar, Intervir e Conviver.

– De modo geral, Encontrar reúne manifestações em que o encontro constitui um corpo coletivo nas ruas – ela explica.

Manifestação contra a corrupção na compra de vacinas durante a pandemia. Avenida Paulista, 3 de julho de 2021. Eixo Encontrar

Já o Eixo Ocupar aborda ações de permanência e resistência ligadas às disputas por território, moradia e direito à cidade.

Manifestante usando boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Avenida Paulista, 12 de julho de 2023. Eixo Ocupar

O Eixo Intervir, por sua vez, apresenta ações de artistas e coletivos que atuam sobre monumentos, símbolos, narrativas e outros dispositivos do espaço público. Um exemplo é a foto do alto desta página, que mostra uma cena do episódio “Era uma vez agora”, da série documental “Enquadro 5×5”, produzida pela casadalapa e gravada na região da Cracolândia, em 2017. O mesmo coletivo fez a intervenção abaixo na Marginal Tietê, em colaboração com Raul Zito, Coletivo Transverso, Paulestinos e Sebastião Dojcsar:

Intervenção Natureza Marginal. Marginal Tietê, janeiro de 2020. Eixo Intervir

Por fim, Conviver reúne práticas em que celebração, cuidado e experiência compartilhada afirmam vínculos coletivos e o direito à circulação.

Cortejo do bloco de carnaval Ilú Obá de Min. República, 21 de fevereiro de 2020. Eixo Conviver

Orgulho da caminhada

A seleção feita por Juliana e Sato busca equilibrar diferentes temas, momentos históricos e maneiras de mobilização, alternando imagens de grandes “corpos coletivos” com retratos, cenas mais intimistas e diferentes formas de ação nas ruas. Sato conta o que sentiu quando viu pela primeira vez a mostra montada com cerca de 170 fotografias.

– Me deu um certo alívio. Percebi a trajetória, a importância que essas fotos mostram dentro de um espaço de tempo da nossa história, muitas lutas necessárias, as vozes ampliadas, pequenas homenagens. É um caminho de que me orgulho muito. A curadoria da Juliana foi imprescindível. Os recortes dos quatro eixos, a gentileza da conversa. Sozinho, fiz uma visita guiada comigo mesmo, e me emocionei. A rua é mágica.

Assalto adiou a estreia como fotógrafo

Em 1996, Sato ganhou de presente uma câmera fotográfica do pai. Mas, antes de chegar a usá-lo, o aparelho foi levado durante um assalto à sua casa.

– O roubo atrasou muito meu processo como fotógrafo. Meu trabalho sempre foi voltado para direção de arte, design, editoração e sinalização. Eu entendia as diferenças de imagem para cada suporte, mas a fotografia era a única coisa que eu não fazia por falta de equipamento, que era muito caro. Fui deixando então a fotografia de lado.

Até que, em 2008, ao viajar pela primeira vez para o exterior ele comprou um smartphone. Virou aficionado por fotos feitas com celular. No começo de 2015, surgiu o coletivo Jornalistas Livres (JL). A jornalista Carol Trevisan chamou-o para uma reunião e convidou-o para participar do projeto.

– Entendi aí que o celular, mesmo com suas limitações, funcionaria muito bem no caso do JL. O celular me permitia subir as imagens em posts do JL, no exato momento do que acontecia à minha frente. A urgência num momento crucial das lutas sociais e no processo de impeachment da presidenta Dilma. Os movimentos sociais na rua, o aparecimento de novos atores na luta e o antagonismo violento do Estado. Além do fato que o celular chamava menos atenção, tanto no confronto com a polícia, quanto em coberturas em áreas vulneráveis.

Abertura da exposição “No olho da rua”. Foto: Beto Assem/Acervo Memorial da Resistência de São Paulo

Balas de borracha e bombas de efeito moral

Sato já passou por várias situações de risco. Principalmente, diz ele, por parte do Estado.

– Sofrer com bombas de efeito moral e tiros de balas de borracha era corriqueiro. Eu estava, em 2013, na manifestação onde o fotógrafo Sergio Silva perdeu a visão de um de seus olhos, atingido por uma bala de borracha disparado por um PM. Estava a 30 metros de onde aconteceu. E estava exatamente do lado da fotógrafa Marlene Bergamo (da Folha de S.Paulo) quando ela tomou um tiro de bala de borracha na barriga, próximo a uma ocupação no Centro de São Paulo. Já fui cercado pela Tropa de Choque da Polícia Militar, com duas jornalistas do JL, onde fomos revistados, e as pontas das metralhadoras batendo nas minhas pernas. Cassetete no braço e nas costas já levei uma par de vezes.

Ele também já teve várias vezes seu celular roubado. Algumas vezes durante coberturas, em outras não. Uma delas durante um assalto à mão armado.

Manifestação contra o assassinato do estudante Matheus Freitas, baleado por policiais militares dentro da Escola Estadual Tancredo Neves. Grajaú, 27 de outubro de 2016
Manifestação contra a morte do estudante Matheus Freitas, baleado por PMs numa escola estadual. Grajaú, 27/10/2016. Eixo Encontrar

‘Precisamos estar juntos’

Sato lamenta que as lutas que estão nas paredes do Memorial da Resistência continuem tendo que ser enfrentadas de novo, em pleno ano de 2026. Dá como exemplo a demarcação da terra indígena Jaraguá, que estão querendo retirar.

– Perdemos de novo algumas dessas lutas. A gente está discutindo coisas que a gente já tinha ganhado. No meu caso, sinto mais raiva que tristeza. Já estivemos em trilhos mais favoráveis, e hoje combatemos mais uma ideia de mundo totalmente opressora, ignorante, preconceituosa e perversa: o fascismo contemporâneo. Não lutamos mais por uma ação, por um tema ou por direitos humanos básicos. Lutamos por liberdade, por um ambiente democrático, pelo que somos, pela vida – diz Sato.

Sato fala sobre a importância de ocupar os espaços públicos.

– A rua é essencial neste momento. O encontro é necessário. No encontro, no olho a olho, ombro a ombro, criamos uma força muito mais potente e coletiva. Em todos os lugares. Numa manifestação, numa intervenção artística, nas escolas, numa ocupação de moradia, em terras originárias. Esquecer o cansaço, a dor nos joelhos, o medo da chuva. Precisamos estar juntos. Sempre foi assim. Todas as revoluções nasceram do coletivo, da massa, do povo. E teremos eleições esse ano. 2026 novamente será o primeiro ano do resto de nossas vidas.

Manifestação do movimento “Jaraguá é Guarani” pela ampliação da demarcação da Terra Indígena Jaraguá, 19/9/2017. Eixo Ocupar

 

Serviço

Exposição: No olho da rua

Local: Memorial da Resistência de São Paulo

Período: 27 de junho de 2026 a 28 de março de 2027

Endereço: Largo General Osório, 66 – Santa Ifigênia – São Paulo, SP

Horário de visitação: De quarta a segunda-feira (fechado às terças), das 10h às 18h

Entrada gratuita

Classificação indicativa: 12 anos

 

A seguir, mais fotos de Sato do Brasil na exposição “No olho da rua”:

“Breque dos Apps”, greve de entregadores de aplicativos durante a pandemia de Covid-19 em função das más condições de trabalho. Avenida Paulista, 1º de julho de 2020. Eixo Encontrar
Manifestação “Greve Geral”, contra as reformas trabalhista e da Previdência. Avenida Ipiranga, 28 de abril de 2017. Eixo Encontrar
Manifestação do movimento “Jaraguá é Guarani” pela ampliação da demarcação da Terra Indígena Jaraguá. Rodovia dos Bandeirantes, 30 de maio de 2023. Eixo Ocupar
Ocupação 9 de Julho consolidada. Centro, 12 de julho de 2023 e 26 de julho de 2024. Eixo Ocupar
Intervenção do projeto Fumaça Antifascista no “Escadão Marielle Franco”. Pinheiros, 2022. Eixo Intervir
20ª Marcha da Consciência Negra. Avenida Paulista, 20 de novembro de 2023. Eixo Encontrar
Derrubada do muro que cercava a Favela do Moinho. Centro, 4 de agosto de 2013. Eixo Ocupar
Projeto Casa Rodante do coletivo casadalapa. Cracolândia, 30 de agosto de 2015. Eixo Intervir
Cena do episódio "Era uma vez agora", da série documental “Enquadro 5x5”, produzida pela casadalapa e gravada na região da Cracolândia, em 2017. Eixo Intervir