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Em meio aos escombros

MAURO VENTURA

O fotógrafo e jornalista brasileiro Yan Boechat estava na Ucrânia em fevereiro de 2022, quando o país foi invadido pela Rússia. Ele havia conhecido a Ucrânia em 2007. Passou a visitá-la regularmente desde 2015. Desde então, já esteve lá mais de 12 vezes.

Uma amostra impressionante dessas visitas pode ser vista na exposição “Ucrânia – De Donbas a Kiev – 12 anos de guerra”, em cartaz no Museu da Fotografia Fortaleza, no Ceará.

A mostra reúne cerca de 60 fotos do conflito, tiradas ao longo dos anos.

– Yan busca o que resta do humano em meio aos escombros. Registros sobre o tempo e a rapidez com que a vida se desfaz – resume o curador, Fernando Costa Netto.

A exposição é dividida em três blocos. O primeiro, “Tempo e guerra”, “busca desacelerar o ato de testemunhar”, numa guerra marcada pela velocidade da tecnologia contemporânea. São 28 fotos em preto e branco feitas como uma câmera analógica Rolleiflex. Em vez de cenas de guerra e de operações militares, o que se vê são imagens do silêncio que permanece após o combate.

Ucrânia em fevereiro de 2025, quatro anos após o início da invasão russa

O curador explica:

– O registro é pausado, forçando o olhar a se demorar nos detalhes. A fotografia lenta como forma de humanizar o desastre e eternizar o grão da realidade.

Estação de metrô em Kharkiv vira abrigo para moradores. Abril de 2022

A segunda série, “Lenin’s head”, testemunha a destruição sistemática de estátuas e monumentos de grandes ícones soviéticos, como Lênin e o escritor, dramaturgo e ativista político Máximo Gorki. Ao longo do século XX, os países da Cortina de Ferro haviam erguido milhares de estátuas dos líderes da União Soviética – só na Ucrânia foram cerca de 5,5 mil. Na maioria dos países do Leste Europeu, esses monumentos foram derrubados logo após o fim da nação soviética, em 1991. Era uma forma de romper, de forma simbólica, com a dominação política e cultural dos países socialistas. Só na Ucrânia é que continuaram presentes na paisagem urbana do país.

Mas os monumentos também sofreram as consequências da animosidade entre os dois países. Somente entre 2014 e 2015 quase duas mil estátuas de líderes soviéticos foram derrubadas pelos nacionalistas ucranianos, fenômeno conhecido como Leniopad, “a queda dos Lênins”. A exposição em Fortaleza conta, inclusive, com uma réplica de uma estátua destruída de Lênin, além de souvenirs russos, como gorros de soldados, flâmulas, facas, a ponta de uma baioneta, estilhaços de granada e de morteiro, cápsulas de munição e placas de minas terrestres. Também há vídeos de Yan em campo, na trincheira, além do colete e do capacete que ele usava ao fotografar.

“Adeus, Lênin”. Cabeça do líder soviético jogada no chão durante a “queda dos Lênins”

O fotógrafo faz uma observação a respeito da Leniopad:

– Em meio à guerra travada contra a Rússia, esses fragmentos de Lênin são testemunhas silenciosas de um passado que insistem em não desaparecer.

O curador, por sua vez, comenta sobre esse conjunto de imagens da mostra:

– É um lado B deste conflito com um enorme significado político. A guerra não apenas contra corpos, mas contra o bronze, o mármore, contra a identidade de um povo.

Estátua destruída: somente entre 2014 e 2015 quase dois mil monumentos foram derrubados pelos nacionalistas ucranianos

E o terceiro bloco, “A guerra em cores”, é o oposto do primeiro. É o coração da ação.

– É o registro da guerra em seu estado mais cru e imediato. São fotografias duras, diretas e dotadas de beleza trágica, que captam o front sem filtros, impedido o espectador de desviar o olhar da brutalidade – observa Fernando Costa Netto.

Essa é uma guerra que usa a tecnologia, com drones, mas que é travada no corpo a corpo – na foto do alto da página, tirada em 2018 por Yan, vê-se uma trincheira do exército ucraniano.

O fotógrafo comenta sobre as imagens que fazem parte do terceiro segmento da exposição:

– É o front da guerra, o instante em que ela acontece. São imagens do exato momento em que a ação se desenrola, mostrando soldados avançando sob fogo, explosões rasgando o horizonte, veículos blindados cruzando campos devastados, corpos em movimento entre ataque, defesa e sobrevivência. São imagens do momento, sem muita reflexão e feitas muito mais no instinto.

Soldados ucranianos atacam tropas russas. Abril de 2023
Bomba explode em Kiev, capital da Ucrânia. Maio de 2022

O conflito entre Rússia e Ucrânia teve início há 12 anos, em fevereiro de 2014, com a anexação da península da Crimeia pelos russos e a ocupação de parte de Donbas por separatistas apoiados pelo Kremlin. Mas a invasão em grande escala do país vizinho ocorreu oito anos depois, no dia 24 de fevereiro de 2022. Nos primeiros dias de guerra, as tropas de Moscou avançaram rapidamente. Em Irpin, a apenas 20 quilômetros da capital da Ucrânia, Kiev, em meio ao caos, três homens foram capturados, acusados de roubar casas de civis que fugiram da cidade. Eles foram levados para a entrada da cidade, despidos da cintura para baixo e amarrados com sacos e filme plástico pelos militares ucranianos a postes. Para impedir que falassem, os soldados colocaram batatas em suas bocas.

Saqueadores amarrados a postes em Irpin, na Ucrânia

Ao longo desses anos indo à Ucrânia, Yan conta os dois pontos que mais o impressionaram. Em primeiro lugar, “a capacidade dos ucranianos em resistir, na obstinação de defender seu território, na incrível capacidade de adaptação a uma guerra nova, que se transforma a cada dia”.

Outro aspecto que o surpreendeu foi a convicção ingênua, por parte dos ucranianos, de que mais uma vez o Ocidente viria em socorro de seu pais.

– Desde os primeiros dias do conflito era fácil perceber que os países ocidentais não pretendiam se envolver profundamente nessa guerra.

Era ilusória a ideia de que soldados da Otan iriam combater a Rússia em terras distantes.

– A combinação dessa coragem resiliente com a crença naîve de que os ocidentais iriam guerrear com a Rússia para salvar a Ucrânia levou os ucranianos a erros terríveis, que custaram a vida de quase uma geração inteira – lamenta Yan.

O conflito já deixou mais de um milhão de soldados mortos, dos dois lados

Experiente na cobertura de guerras em locais como Síria, Iraque, República Democrática do Congo, Faixa de Gaza e Afeganistão, Yan diz o que vê de diferente no maior e mais sangrento conflito na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, muito mais arriscado de cobrir que os demais. Ele observa que o caso de agora é a primeira guerra simétrica que a geração dele testemunhou. Ao longo dos 20 anos anteriores, o que houve foram conflitos assimétricos, em que estados-nação combatiam “rebeldes”, “terroristas” ou “insurgentes” – as denominações, diz ele, variam de acordo com a estratégia de desumanizar o inimigo. O mundo assistiu – e cobriu – a guerras contra o Talibã, os insurgentes do Iraque, os terroristas da Al Qaeda, o ISIS.

– Quase sempre o que vimos foi uma guerra de guerrilha, em que combatentes não profissionais enfrentavam uma força muito superior e com a força de um estado por trás de si. Já a guerra da Ucrânia, em especial a partir de 2022, é diferente. São dois estados-nação, bem equipados, lutando entre si. Acabam os ataques furtivos, os combates com armas leves e entram a artilharia e os mísseis. É muito diferente e profundamente mais desafiador de cobrir. É como se toda a experiência acumulada em anos de coberturas não tivesse mais nenhuma validade. A sorte se tornou a mãe de todas as idas ao front.

 

Serviço:

Exposição: “Ucrânia – De Donbas a Kiev – 12 anos de guerra”

Local: Museu da Fotografia Fortaleza (Rua Frederico Borges, 545 – Varjota, Fortaleza, Ceará).

Período: Até 30 de agosto de 2026

Horário de visitação: Terça a domingo, das 12h às 17h

Entrada franca

 

A seguir, outras fotos da exposição “Ucrânia – De Donbas a Kiev – 12 anos de guerra”:

Irpin, na região metropolitana de Kiev, foi destruída pelas tropas russas, e depois retomada pelos ucranianos. Março de 2022
Uma explosão destruiu um carro e seu ocupante durante ataque russo
Os rastros da destruição em Donetsk. Março de 2025
Kiev, capital da Ucrânia, foi bombardeada pelos russos
Corpos espalhados no chão: cenário comum no conflito que se arrasta há quatro anos
Prédio bombardeado em Kharkiv, após o cerco russo. Janeiro de 2023
Tropas russas assumiram o controle da usina de Chernobyl, e depois recuaram. Fevereiro de 2024
Destruição causada por forças russas na cidade de Sumy. Março de 2023
Trincheira do exército ucraniano em 2018