Questões urgentes do nosso tempo
EQUIPE TESTEMUNHA OCULAR
Dois brasileiros estão entre os fotógrafos premiados pelo World Press Photo, o mais prestigiado concurso de fotojornalismo e fotografia documental do mundo. Os trabalhos de cuiabana Priscila Ribeiro e do londrinense Eduardo Anizelli estarão em exibição na exposição World Press Photo (WPP), que abre neste dia 5 de maio no Rio.
A mostra traz as obras dos 42 vencedores do 69º concurso anual, escolhidas entre as 57.376 fotografias apresentadas por 3.747 profissionais de 141 países, divididos em seis regiões, África; Europa; América do Sul; América Central e do Norte; Ásia Ocidental, Central e do Sul; e Ásia Pacífico-Oceania. São três categorias: Individual, Reportagem e Projeto de Longo Prazo.
– O que nos comoveu como júri foi a extraordinária variedade e profundidade do que testemunhamos (nos trabalhos) – diz Kira Pollack, presidente do júri global do WPP. – Histórias de todas as regiões, em todos os estilos: fotojornalismo tradicional ao lado de trabalhos líricos; projetos documentais de grande alcance ao lado de estudos íntimos, que se estenderam por anos, sobre uma única comunidade. Histórias de ruptura e perda, mas também de resiliência, dignidade e esperança.

Um dos ganhadores em Reportagem foi Abdulmonam Eassa, que fez uma série para o jornal francês Le Monde retratando a guerra civil que assola o Sudão (uma das fotos pode ser vista abaixo). Após uma revolução em 2019 ter derrubado décadas de ditadura, as esperanças democráticas foram esmagadas por um golpe militar em 2021, provocando uma das piores crises humanitárias do mundo. Mais de 13 milhões de pessoas tiveram que se deslocar e pelo menos 150 mil foram mortas.
O júri do WWP explica: “Mostrando cidades devastadas, edifícios marcados por balas e cenas que evocam a intensidade da linha de frente, o trabalho (de Eassa) transmite a realidade de um conflito ao qual muitas vezes é difícil ter acesso ou testemunhar. A montagem final leva os espectadores diretamente para o ambiente da guerra, oferecendo um registro visual impactante e incomum da situação à medida que ela se desenrola.”

O maior destaque do WPP 2026 é a foto do ano, “Separados pelo ICE”, que pode ser vista no alto desta página. Foi feita por Carol Guzy, da agência ZUMA Press/iWitness, para o Miami Herald. ICE é a sigla para Immigration and Customs Enforcement, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. A imagem foi selecionada a partir de um conjunto mais amplo de trabalhos de Guzy, “Prisões do ICE no Tribunal de Nova York”, vencedor da categoria Reportagem na região da América do Norte e Central.
A imagem flagra o momento em que a família é separada pelo Estado. O equatoriano Luis foi detido por agentes do ICE após uma audiência num tribunal de imigração em Nova Iorque, em 26 de agosto de 2025. Ele está à esquerda do quadro. No centro da imagem estão suas duas filhas, de 15 e 13 anos. Sua mulher, Cocha, aparece ao fundo. Não vemos seu filho de 7 anos. Segundo Cocha, ele não tinha antecedentes criminais e era o único provedor da casa. A fotógrafa descreve o retrato como “uma mãe e crianças inconsoláveis, desesperadas após a detenção do pai da família”.
Uma imagem que concorreu com a de Carol ao prêmio de foto do ano intitula-se “Ajuda de emergência em Gaza” (veja abaixo), feita por Saber Nuraldin, da EPA Images. O fotógrafo nasceu em Gaza e documenta a vida no local desde 1997. Em março de 2025, as autoridades israelenses impuseram um bloqueio total à ajuda humanitária. Segundo a ONU, entre o fim de maio e o início de outubro, pelo menos 2.435 palestinos foram mortos em pontos de distribuição de ajuda ou nas proximidades.

Segundo a organização do WPP, os projetos premiados transcendem a mera documentação, oferecendo um poderoso registro visual de conflitos globais. As escolhas refletem os temas mais urgentes da atualidade no mundo, como os principais conflitos sociais e políticos, a crise climática, a poluição e a luta das mulheres por mais direitos.
O conflito em Gaza mobilizou outros fotógrafos, como Saher Alghorra, que fez uma reportagem para o jornal The New York Times. Ele registrou o momento em que a Torre Mushtaha desaba durante uma ofensiva israelense contra Gaza. Saher também documentou palestinos no campo de refugiados de Al-Mawasi lutando por alimentos. O fotógrafo trabalhou sob imenso perigo, motivado, segundo disse ao WPP, pela recusa em permitir que o mundo desviasse o olhar para o drama: “Mesmo quando tudo ao meu redor me dizia para parar, eu não conseguia – o silêncio significaria rendição.”

A decisão de premiar Saher foi justificada assim pelos jurados: “Este projeto oferece um registro impactante e cuidadosamente editado da guerra em Gaza e das lutas diárias de seu povo. Imagens de civis mortos enquanto buscavam ajuda alimentar, a desnutrição de uma criança e sua mãe, a destruição de casas e uma família quebrando o jejum do Ramadã em meio à devastação revelam fragmentos de uma vida sob constante ameaça. Capturada por um fotógrafo local que trabalhou sob imensa pressão pessoal e profissional, a série transmite uma urgência e uma intimidade únicas.
O júri reconhece que o fotógrafo vivenciou o mesmo perigo, deslocamento, fome e perda refletidos em suas imagens. O trabalho, portanto, testemunha uma realidade que o mundo talvez não visse de outra forma, afirmando o papel essencial dos jornalistas locais em tempos de guerra.
Há imagens fortes de outros conflitos pelo mundo, como a guerra na Ucrânia. David Guttenfelder, do New York Times, fez uma reportagem que documenta os esforços do país para aprimorar sua capacidade de uso de drones e o impacto dos ataques de drones russos sobre a população civil. Uma das fotos mostra uma moça abraçando uma égua morta.
Em Madagascar, Luis Tato, da Agência France-Presse, fotografou protestos de estudantes contra a ineficiência dos serviços públicos, a corrupção e as dificuldades econômicas. Diante da pressão, o presidente dissolveu o governo, mas se recusou a renunciar. Os militares tomaram o poder e prometeram eleições, mas excluíram os jovens da definição da transição política. De acordo com o júri, a reportagem captura a magnitude da mobilização de jovens da Geração Z nas ruas, “transmitindo tanto energia quanto urgência”. “Em conjunto, as imagens (como a que pode ser vista abaixo) oferecem um registro visual significativo do ativismo juvenil em 2025.”

Há também cenas como um protesto de aposentados contra as medidas do presidente argentino Javier Milei. Tadeo Bourbon documentou para a Revista MuNa a detenção do padre Jorge “Chueco” Romero durante uma manifestação. Integrantes do clero da Opção pelos Pobres aderiram aos atos semanais contra o congelamento das aposentadorias e os cortes na cobertura médica essencial.
Há variadas cenas de violência, como as feitas por Anizelli na Operação Contenção, a ação policial mais letal da história do Rio, que deixou 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha. Ele venceu na categoria Reportagem, na América do Sul, com o projeto “Aqueles que carregam os mortos”, conjunto formado por dez imagens. Após a operação, as autoridades não enviaram equipes forenses, fazendo com que os próprios moradores tivessem que carregar seus mortos.

Já Priscila venceu na categoria Individual da América do Sul, pela imagem “Um território de esperança”, que registra a cena de uma avó, Sandra Mara Siqueira, e seus netos, Micael, Davi, Ana Flávia e Vitória, na cidade de Colombo, no Paraná. Ela mora desde 2013 na ocupação do Parque dos Lagos, que abriga 200 famílias. O projeto denuncia a situação de milhões de brasileiros que não têm acesso a moradias seguras, com um déficit nacional de 5,9 milhões de casas. São cerca de 16,4 milhões de pessoas vivendo em assentamentos informais, em condições precárias, sem acesso à água, saneamento básico e eletricidade.
Segundo o júri, a imagem aborda os desafios habitacionais no Brasil, ao mesmo tempo em que celebra temas universais como família, comunidade e amor. “Por meio de um retrato acolhedor e íntimo de uma avó cuidando dos netos, a foto transmite alegria, união e a resiliência cotidiana das famílias que vivem em condições precárias.”

O impacto da crise climática aparece em muitos momentos, em diferentes países, dos Estados Unidos às Filipinas, do México à Noruega. “Os retratos ambientais aproximam os espectadores da natureza de forma impressionante e realista”, dizem os jurados. Um exemplo é série de fotos (uma delas pode ser vista abaixo) de Ethan Swope, para a Associated Press, sobre o incêndio em Los Angeles. Em janeiro de 2025, uma seca recorde e ventos com velocidades de 160 km/h provocaram 14 incêndios florestais devastadores na cidade californiana, destruindo mais de 18 mil residências e estabelecimentos comerciais, e desalojando 200 mil moradores. “O projeto oferece uma perspectiva abrangente sobre a perda, a resiliência e a experiência comunitária em meio a um desastre sem precedentes”, elogiaram os jurados.

A Espanha também sofreu com o fogo, como se vê na foto abaixo de Brais Lorenzo, da EFE, para a Revista 5W, do El País. O ano de 2025 foi recorde para incêndios florestais na Europa. Mais de 200 mil hectares foram queimados em toda a Galícia durante a pior temporada de incêndios da Espanha em cerca de três décadas, causados pela seca, pelo calor intensificado pelas mudanças climáticas, pelo despovoamento rural e pelo plantio generalizado de espécies não nativas altamente inflamáveis. Nascido na cidade de Ourense, o fotógrafo vem documentando os incêndios florestais galegos desde 2011.

O júri explicou a escolha pelo trabalho de Lorenzo: “Esta reportagem oferece uma visão urgente e abrangente dos incêndios florestais que assolam a Espanha, proporcionando uma proximidade com as chamas combinada com a perspectiva pessoal do fotógrafo. Por meio de uma paleta ousada e unificada, e de composições variadas, as imagens transmitem a magnitude dos incêndios, o vazio das aldeias despovoadas e a complexa interação entre paisagens em transformação, mudanças climáticas e o custo humano das decisões políticas locais.”
Os organizadores do prêmio ressaltaram a variedade de temas que foram apresentados: “Íntimas e muitas vezes comoventes, as obras revelam a fragilidade da vida humana que vão da doença e do isolamento ao luto e à sobrevivência. Em paralelo, a mostra conta histórias das gerações mais jovens, desde bailarinas na África do Sul a mulheres cavaleiras no Marrocos, e o drama de famílias afetadas pela aplicação da lei de imigração nos Estados Unidos.”
Um dos projetos, feito por Chantal Pinzi, mostra a Tbourida, tradição equestre marroquina reconhecida pela Unesco que remonta ao século XVI. “Historicamente excluídas, as amazonas têm lutado pela inclusão desde que as reformas do Código da Família de Marrocos, em 2004, reforçaram os direitos legais das mulheres. Hoje, sete grupos compostos exclusivamente por mulheres participam entre cerca de 300. Essas farīsāt (cavaleiras) arcam com custos pessoais significativos, financiando seus próprios cavalos, trajes e licenças para porte de pólvora. Sua perseverança representa uma reivindicação poderosa pelo lugar que as mulheres merecem no patrimônio cultural marroquino”, informa o WPP.
O júri justificou a escolha da série de fotos de Chantal (uma das imagens pode ser vista abaixo): “Esta história oferece uma representação revigorante e empoderadora das mulheres. Por meio de cenas criativas combinadas com uma paleta de cores distinta, o projeto apresenta momentos belos e inesperados, ampliando a percepção do espectador sobre o que é possível na vida dessas mulheres. A abordagem visual única do fotógrafo retrata as mulheres de uma forma que se mostra ao mesmo tempo original e inspiradora.”

Em contraposição, a mostra traz imagens de uma escola no Paquistão que foi atacada pelo Talibã como parte de uma campanha para impedir que meninas tenham acesso à educação. Desde 2011 o fotógrafo Diego Ibarra Sánchez – filho de uma professora e pai de uma menina de 11 anos – vem documentando a crise da educação em nove países, da Ásia Ocidental e Meridional à Europa e América do Sul. Por conta de guerras, extremismo e deslocamentos escolas são destruídas, professores mortos ou forçados a se mudar, livros didáticos queimados e salas de aula transformadas em quartéis. A ONU estima que 85 milhões das 234 milhões de crianças em idade escolar afetadas por conflitos em todo o mundo não têm acesso algum à educação.
A vida animal também aparece em muitos trabalhos, como o do fotógrafo Roie Galitz, que registrou um urso polar com cerca de 350 quilos se alimentando de um cachalote morto, que pesa mais de 40 toneladas (foto abaixo). A imagem mostra o drama do aquecimento global no Ártico, que está aquecendo quase três vezes mais rápido do que o resto do mundo. Perto do arquipélago de Svalbard, o período de verão sem gelo aumentou em 20 semanas nos últimos 30 anos. À medida que o gelo se quebra e as águas abertas se expandem, os ursos precisam percorrer distâncias maiores e nadar por mais tempo, gastando mais energia enquanto capturam menos presas.
A respeito da imagem premiada, o júri disse: “Esta fotografia retrata um urso polar se alimentando de um cachalote morto e em decomposição que flutua no gelo marinho polar. O fotógrafo utiliza com eficácia a perspectiva de um drone para capturar um momento tecnicamente desafiador e revelar uma cena que, de outra forma, teria permanecido invisível. A composição convida o espectador a demorar-se — revelando o urso depois que o olhar se fixa na baleia —, ao mesmo tempo em que evoca reflexões metafóricas sobre o derretimento do gelo e as mudanças ambientais. Sua perspectiva e escala incomuns despertam curiosidade e admiração, transformando o quadro em um estudo visual e conceitual da natureza.”

Serviço:
Exposição: World Press Photo 2026
Local: CAIXA Cultural RJ – Unidade Passeio
Período: abertura dia 5 de maio, às 17h. Até 28 de junho de 2026. Depois do Rio, a mostra segue para São Paulo (14/7), Curitiba (27/10) e Salvador (26/01)
Endereço: Rua do Passeio, 38 – Centro, Rio de Janeiro. Próximo à estação Cinelândia do Metrô. (21) 3083-2595
Horário de visitação: Terça a sábado: das 10h às 20h/Domingos e feriados: das 11h às 18h
Entrada gratuita
Classificação etária: 12 anos
A seguir, mais fotos da exposição World Press Photo 2026:

