Aqueles que carregam os mortos
MAURO VENTURA
O fotógrafo Eduardo Anizelli descreve o que ficou marcado em sua mente na manhã do dia 29 de outubro de 2025:
– Uma fila enorme de corpos à minha frente, o cheiro da morte e os gritos de dor de quem perdeu familiares para a violência – diz ele, que nasceu em Londrina, estudou jornalismo na Universidade Norte do Paraná e iniciou sua carreira como fotojornalista no jornal Folha de Londrina.
Como repórter fotográfico, ele já havia presenciado tragédias, mas nada semelhante à ação policial mais letal da história do país, a Operação Contenção, que resultou em 122 mortes, cinco delas de policiais, em outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha.
– Não havia como não se comover diante de tudo aquilo. Ser fotojornalista é aprender diariamente a lidar com os demônios da profissão, sem jamais perder a sensibilidade diante da dor das pessoas – conta Eduardo, de 43 anos, que trabalhou como fotógrafo freelancer para o jornal O Estado de S.Paulo e para a Getty Images até que, em 2008, ingressou na Folha de S.Paulo como freelancer e tornou-se fotógrafo efetivo em 2012, cargo que ocupa até hoje.
Uma série de dez fotos que ele fez no dia da operação policial, intitulada “Aqueles que carregam os mortos”, ganhou há pouco o World Press Photo (WPP) na categoria Reportagem da América do Sul, e podem ser vistas numa exposição que foi inaugurada no dia 5 de maio na Caixa Cultural do Rio, com todos os vencedores da premiação.

Anizelli comenta o que sentiu ao receber o resultado:
– Vencer esse prêmio é um sonho profissional realizado. Já vinha tentando há um bom tempo. Na real, desde que eu entrei na Folha. Então são 18 anos me inscrevendo. Finalmente, depois de todos esses anos eu consegui conquistar o prêmio. Mas junto vem um misto de sentimentos, porque ao mesmo tempo em que se trata do maior reconhecimento do trabalho que um fotojornalista pode ter, uma espécie de Oscar do fotojornalismo mundial, o tema é muito pesado.
Apesar do peso, ele sabe a importância do que faz.
– Estamos lá para reportar, denunciar e cobrar, o que torna esse trabalho super importante e necessário. E ter as fotos publicadas no World Press Photo tem mais importância ainda, pois ajuda a não deixar o fato cair no esquecimento.
E também mantém em questão o debate sobre a violência policial.
– Não cabe à polícia decidir quem vive ou morre – diz.
Entre barricadas do tráfico e caveirões da polícia
Na véspera da operação, Anizelli passara o dia na região fotografando suspeitos sendo presos, policiais em ação e caveirões levando feridos aos hospital Getúlio Vargas. Mas ainda não tinha aparecido nenhum corpo. Até que, na porta do hospital, parentes das vítimas lhe disseram: “Você tem que ver a covardia que estão fazendo lá em cima, tem que ver de perto, não adianta só fazer foto aqui”, disse uma mulher, referindo-se à Mata da Vacaria, na localidade da Serra da Misericórdia.
No dia seguinte, resolveu chegar cedo ao Complexo da Penha. Passava pouco das 5h da manhã, ele estava próximo à Praça São Lucas quando recebeu um telefonema do colega André Coelho, da EFE, que lhe disse que já havia 37 corpos na frente da Associação de Moradores. André acrescentou: “Os moradores estão querendo subir com a gente na mata.” Anizelli disse que já estava chegando e pediu que o esperassem. Ao chegar, um homem, que estava usando uma caminhonete para trazer corpos da mata, falou: “Se vocês quiserem subir é agora.” Os dois toparam, junto com dois cinegrafistas.
– Passamos por barricadas e por traficantes, até encontrarmos vários corpos espalhados pela mata – diz Anizelli.
Ele fez dezenas de imagens durante o dia, como essa abaixo, que não foi incluída entra as enviadas para o WPP:

A cena que mais o marcou na cobertura é a de uma mulher com as mãos na cabeça de um homem deitado de bruços, com um lençol amarelo por cima (foto do alto dessa página).
– Até hoje me lembro bem dos gritos da mulher ao reconhecer o marido, pedir para que ele se levantasse e dizer que fosse embora para a casa com ela. Ela falava que sabia que essa vida no crime não daria certo e que não queria que ele fizesse isso. A moça se lamentava muito pelo que tinha acontecido.
Foto de drone mostra fileira de cadáveres
Em vez de bombeiros e socorristas, eram os próprios moradores que estavam trazendo as vítimas do alto da Mata da Vacaria para baixo, em direção à Praça São Lucas. Havia até crianças participando das buscas. No lugar de ambulâncias, o que se via eram caminhonetes particulares fazendo o trabalho de remoção.
A certa altura, Anizelli recebeu a informação de que havia um caveirão da PM embaixo e pensou: “Se a polícia entrar de novo, vamos virar um alvo fácil.” Ele e Coelho decidiram descer. Viajaram pendurados no estribo de uma caminhonete, um de cada lado, já que o veículo estava com a caçamba cheia de corpos empilhados. No caminho de volta, foram parados por traficantes, que quiseram ver as vítimas – reconheceram colegas do crime entre elas.
Já de volta à praça, viu moradores em situação de rua e até crianças ajudarem a retirar os corpos dos carros. A própria comunidade fez questão de enfileirar no chão os parentes mortos para evidenciar ao mundo a extensão do massacre. Anizelli fez fotos de drone que mostram os cadáveres sobre o asfalto e dão a dimensão do que foi o resultado macabro da ação policial.
Ele viu corpos com marcas de tiro e outros que pareciam ter ferimentos a faca. Havia quem estivesse com o rosto desfigurado por causa da bala. Apesar de acostumado a fotografar cenas trágicas – trabalhou por mais de um ano cobrindo o dia a dia policial nas madrugadas da Grande São Paulo e cobriu desastres como o de Brumadinho – ele diz que essa foi a cobertura mais difícil que já fez:
– Foi a primeira vez que precisei parar para respirar e esperar passar a crise de choro, antes de editar as fotos e enviá-las para a redação da Folha.

O júri do World Press Photo justificou a premiação:
– Esta reportagem constitui um registro essencial de um importante acontecimento. Por meio de uma edição cuidadosa, as imagens transmitem a magnitude do incidente, incluindo o que ocorreu ao longo de dois dias nas montanhas e nas favelas, bem como o impacto sobre a comunidade, ao mesmo tempo em que destacam a corrupção policial e o uso indiscriminado da força. O trabalho permanece como um registro impactante, enfatizando a importância de testemunhar para garantir que tais eventos não sejam esquecidos nem se repitam.
A seguir, mais fotos da série de Eduardo Anizelli premiada pelo World Press Photo:

