Carta de amor ao México
MAURO VENTURA
A fotógrafa Adriana Zehbrauskas define seu novo livro, “Alma”, como uma carta de amor ao México. Ela morou lá de 2004 a 2018. Foi uma relação próxima, “de descobrimentos, maravilhamento e admiração, mas também de frustrações e desconfortos”.
– Passei a amar esse país tão intenso e cheio de contradições. Ele se tornou parte do meu ser. Enquanto documentava as histórias e as vidas de estranhos, eu, ao mesmo tempo, inconscientemente, buscava e construía minha própria identidade em um país que me mostrava, em igual medida, magia e dor, exuberância e perda, vulnerabilidade e fortaleza – diz ela, que atualmente mora em Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos.
Adriana continua:
– É um lugar que nunca me deixou me acomodar na certeza, mas sempre me deu beleza e coração suficientes para ficar. A câmera tornou-se tanto um escudo como um espelho: nos rostos dos outros, eu ia descobrindo, aos poucos, os contornos do meu próprio rosto.
E por que Adriana define este trabalho como uma carta de amor?
– Uma carta de amor é escrita sem pressa, feita para ser guardada e decifrada – explica. – Ela é a expressão de um sentimento profundo, um texto que, em geral, transmite afeto, saudades, admiração, devoção. Ou também medos e inseguranças. É uma linguagem emocionalmente sincera, que nos obriga a buscar sentimentos mais profundos e expor nossa própria vulnerabilidade.

O livro reúne imagens feitas por todo o país, mas a maioria das fotos foi tirada na Cidade do México, onde morou. Há muitas cenas de Tepito, bairro central da cidade, um “microcosmo da realidade elevado à enésima potência”. Apesar de toda a violência, o bairro é repleto de religiosidade, história, orgulho e criatividade.
– Foi um grande desafio retratar essa comunidade, um lugar onde tudo está à flor da pele, mas ao mesmo tempo é carregado de simbolismos e tradição – diz ela, que é especializada em fotos relacionadas à imigração, aos direitos humanos, à religião, a comunidades sub-representadas e à violência do narcotráfico.

O tema da imigração é uma constante em sua obra, e também no livro. Ela mostra o impacto no dia a dia mexicano, como na foto que traz Ramiro Sanchez, de 70 anos. Ele espera na fila para receber seu café da manhã gratuito no abrigo católico localizado bem em frente a El Bordo. Sanchez morou 40 anos em San Bernardino, na Califórnia, e, quando foi deportado, há cinco anos, decidiu ficar em Tijuana em vez de voltar para seu estado natal, Michoacán.
Ramiro deixou sua mulher e seus cinco filhos na Califórnia e diz que ficar perto da fronteira o faz se sentir mais próximo deles. Centenas de pessoas chegam todas as manhãs para o café da manhã gratuito oferecido pelo Desayunador Salesiano del Padre Chava. Embora aberto a todos, a grande maioria dos frequentadores são os migrantes deportados que chegam todos os dias a Tijuana.

Em outro momento, feito em 20 de fevereiro de 2008 para o jornal The New York Times, ela registra o cotidiano em Valle de Vázquez. O vilarejo depende quase exclusivamente de remessas enviadas por parentes nos Estados Unidos – o problema é que a maioria dos moradores não possui acesso a serviços bancários.

Uma cena tradicional nas fotos do livro é o culto à Santa Muerte. Devotos fazem oferendas, como tatuagens, e acendem velas para pedir proteção, sucesso e amor, ou exigir justiça ou vingança.

Adriana tem como mentora a fotógrafa documental americana Susan Meiselas, que disse certa vez: “Não chegue ao local com uma missão, chegue com uma pergunta.” Adriana diz como faz seu trabalho:
– Temos que chegar com a mente, olhos e ouvidos abertos para poder documentar com honestidade, estar atentos ao desenrolar das histórias. Estar o tempo todo nos perguntando: “O que está acontecendo aqui? Como posso transmitir essa história da melhor maneira possível?” É importante ter humildade para reconhecer quando a história em campo é diferente do que imaginávamos e corrigir a trajetória.
O pai de Adriana, Ricardo Zehbrauskas, era jornalista e conhecia bem as dificuldades da profissão. Ao ouvir da filha a escolha pela fotografia, ele disse: “Por favor, não faça isso, você vai passar fome”.
– Ele ficou muito preocupado com minha decisão, mas, passado o choque inicial, me apoiou integralmente. Foi por ele que entendi o poder da fotografia como um instrumento de memória para documentar nossa vida cotidiana. E, mais do que fotógrafa, me influenciou a contar histórias.
Teleférico
Há muitas fotos feitas para o jornal The New York Times, como a que mostra o Mexicable, uma linha com sete estações que percorre pouco mais de 4,8 quilômetros por uma faixa de bairros pobres nas encostas. Ele faz parte de uma constelação crescente de teleféricos na América Latina que conectam comunidades marginalizadas aos centros metropolitanos de suas cidades.
Ao longo do trajeto do Mexicable, o governo pintou as fachadas de cores como rosa choque, verde e malva, e encomendou cerca de 50 enormes murais. Numa das imagens, no alto dessa página, está Pablo, de 4 anos. Ele posa perto da Estação nº 4 do teleférico — embora adore o passeio, sua mãe tem medo e raramente o utiliza.

Outra imagem do New York Times mostra mulheres durante reunião de seu grupo de microfinanciamento, Compartamos, na sala de estar de uma delas, em Valle de Vázquez, em 20 de fevereiro de 2008. Embora o vilarejo dependa em grande parte das remessas enviadas por parentes nos Estados Unidos, os empréstimos da Compartamos ajudaram algumas mulheres a se tornarem autossuficientes.
Algumas mulheres já eram empreendedoras bem-sucedidas desde o início, mas o crédito da Compartamos lhes dá um impulso, permitindo que contratem um funcionário ou ajudem a aliviar seu fluxo de caixa.

O dia a dia de Valladolid, em Yucatán, também aparece no livro, como na foto tirada em 5 de setembro de 2012 para o New York Times que registra um salão de cabelereiro datado de 1904.

Antes de se mudar para o México em 2004, Adriana fez várias viagens ao país. A mais marcante foi em 1997, quando fez um workshop com a fotógrafa americana Mary Ellen Mark (1940-2015) em Oaxaca.
– Foi um divisor de águas na minha carreira e na minha visão fotográfica.
Mary Ellen viajou o mundo registrando os excluídos da sociedade. Fotografou bordéis, instituições psiquiátricas, comunidades de rua, prisões. Num de seus projetos, acompanhou por três décadas uma prostituta de 14 anos viciada em heroína. Ela costumava dizer: “Se algo não te toca emocionalmente, você não irá conseguir fazer uma boa fotografia.”
Adriana incorporou de forma magistral a lição.

Serviço
Livro “Alma”, de Adriana Zehbrauskas
Preço: 54,90 euros
Descrição: 128 páginas, capa dura, 22×24 cm, editado por Marco Savarese, em inglês
Edição limitada, lançada pela Eyeshot. Encomendas até dia 30 de junho de 2026 pelo site https://www.eyeshotstreetphotography.com/shop/books/alma-by-adriana-zehbrauskas/
A seguir, mais fotos de Adriana Zehbrauskas para o livro “Alma”:

