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Em foco, o papel da fotografia

MAURO VENTURA

As enchentes que inundaram o Rio Grande do Sul em 2024 afetaram 478 cidades do estado, afetaram 6,3 milhões de pessoas, deixaram 185 mortos, 23 desaparecidos e 806 feridos. As imagens da tragédia deixaram o país estarrecido. Mas nem tudo era verdade.

– Enquanto fotojornalistas, cidadãos e comunicadores locais arriscavam o corpo nas águas sujas e na lama para registrar e documentar a matéria física da catástrofe, motores de Inteligência Artificial (IA) inundavam as redes com simulações do desastre, geradas não apenas para capturar cliques e engajamento emocional, mas também para alimentar desinformação e golpes financeiros com campanhas fraudulentas de doação sobre a ruína alheia – observa o professor e pesquisador Michele Pucarelli, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que coordena o Liex, o Laboratório de Imagens Expandidas da universidade.

Michele participa nesta quinta-feira, dia 10 de setembro, do Festival Paraty em Foco. Ele está na mesa “Soberania visual: corpo, memória e território”, junto com a fotojornalista Ana Carolina Fernandes, com mediação de Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles.

Há uma grande diferença entre as imagens produzidas por fotógrafos daquelas geradas pela IA, como diz a apresentação da mesa, cuja ideia central é discutir o que resta da memória visual de um país quando a máquina tenta substituir o olho humano: “Enquanto a inteligência artificial fabrica miragens algorítmicas sem nunca pisar o chão dos acontecimentos, o fotodocumentarismo pulsa no calor da hora, guiado pelo afeto, intuição e presença física.”

 

A mesa que discute fotodocumentarismo e IA

 

200 anos da primeira fotografia

Em sua 22ª edição, o evento tem entre suas principais discussões justamente o papel e a importância da fotografia nos dias atuais. O título do festival, “Do grão ao pixel: 200 anos de fotografia”, faz referência tanto à grande evolução tecnológica que transformou o grão em pixel como à primeira imagem captada na história, feita pelo inventor francês Nicéphore Niépce, batizada de “Vista da janela em Le Gras”, feita 1826. Utilizando um processo chamado heliografia, ele capturou a cena em uma superfície após oito horas de exposição.

Primeira foto, feita há 200 anos por Nicéphore Niépce

 

Desafios da fotografia

O fundador e diretor geral do evento, Giancarlo Mecarelli, explica:

– A ideia é tanto reverenciar o passado como apontar caminhos para o futuro desta arte, que, apesar de amada e praticada por bilhões de pessoas no mundo, hoje se encontra diante de uma série de desafios, como a própria Inteligência Artificial.

Outras duas mesas abordam temas correlatos ao de Michele e Ana Carolina. Na sexta-feira, é dia de “200 anos de fotografia: sobreviveremos à Inteligência Artificial?”, reunindo Sergio Burgi em conversa com Emmanuel Lenain. A mesa visa debater e explorar as possibilidades colaborativas entre o fotógrafo e os recursos generativos trazidos pela IA. Uma questão em discussão é: assim como a fotografia não fez a pintura desaparecer ao destituí-la de seu papel de representação fiel da realidade, talvez a fotografia – ao perder o seu monopólio na criação de imagens realistas – esteja em contrapartida alcançando o status de arte pictórica autônoma e liberta de sua condição implicitamente documental.

 

Mesa debate convivência entre fotografia e IA

 

Papel do fotógrafo

Por fim, no sábado, a programação conta com a mesa “A morte da fotografia”, com Roberto Cecato e Fausto Chermont. Um tópico a ser debatido é: “Quando imagens geradas por comandos de texto inundam o mundo sem partir da luz nem do real, o que ainda justifica a existência do fotógrafo?”.

 

A mesa que vai falar sobre o papel da fotografia e do fotógrafo

 

IA é ilustração

Roberto Cecato lembra que há cerca de dez anos o fotógrafo e arquiteto japonês Hiroshi Sugimoto disse que a fotografia morreu com o advento do digital. Pouco depois, Sebastião Salgado fez a mesma afirmação. Mas ele observa que o que morreu foi uma certa fotografia, relacionada à materialidade, “aquela inseparável da matéria que a sustentava, que era o grão de prata, a emulsão, o papel, o laboratório como espaço alquímico”. Com a chegada do digital, a imagem perdeu sua materialidade. O grão de prata deu lugar ao pixel, representado por um código binário.

– A imagem tornou-se fluida, duplicável, impermanente.

Mas a fotografia digital e a fotografia analógica ainda se unem no vínculo com o real, algo que ambas partilham.

Foi com o surgimento da IA que as coisas se tornaram ainda mais complexas.

– O digital tirou a materialidade da foto, mas ela continua sendo foto. Já a IA não é. Ela é uma ilustração. A fotografia é necessariamente ligada à realidade, ela se vale sempre do real. A IA generativa rompe esse último vínculo. As imagens sintéticas não partem da luz, não partem do visível, partem de um comando escrito. São a ilustração de um texto. Ocupam o espaço visual da fotografia sem partilhar sua natureza – observa Cecato.

À frente da Roberto Cecato Academy, projeto de ensino e difusão da cultura fotográfica, ele desenvolveu ao longo de 50 anos de trajetória, iniciada em 1976, elogiados trabalhos autorais marcados pela materialidade, como nas duas imagens abaixo:

“Non c’è Nessuno”, exposição na Bienal de Turim em 1995. Ampliada em papel artesanal japonês emulsionado a mão pelo autor
“Looking trough you”. 1991. Primeira série ampliada em Milão sobre papel de aquarela emulsionado a mão, da qual dois retratos fazem parte da Coleção Pirelli Masp

 

Desejo inato do ser humano

Cecato convidou Fausto Chermont para conversar com ele sobre a mudança de paradigma trazida pelo digital e pela IA. Diretor-fundador do NAFOTO (Núcleo dos Amigos da Fotografia), Chermont comenta de forma bem-humorada o título provocativo da mesa (“A morte da fotografia”):

– Se ela estiver morta, a gente ressuscita, e se ela estiver morrendo, a gente salva.

Fotógrafo e pesquisador, Chermont coordenou, organizou e fez, entre 1993 e 2003, a curadoria de projetos de fotografia e de novas tecnologias do MIS-SP, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

– Roberto acha que o desejo pela materialidade é o que satisfaz, e que a virtualidade e a imaterilidade da fotografia digital não são suficientes. Eu acho que a fotografia é um desejo inato do ser humano em preservar a memória – diz ele.

Edifício Copan, 2004. Foto de Fausto Chermont

 

Importância da formação do fotógrafo

Cecato não é adepto da Inteligência Artificial em seus trabalhos.

– Quanto mais eu conheço a IA mais eu tenho vontade de ser fotógrafo…

Mas ele não demoniza nenhuma tecnologia.

– Não quero fazer o que fizeram os pintores quando surgiu a fotografia, de dizer é “arte de segunda classe”.

O que ele sugere aos fotógrafos de hoje é que voltem aos processos do século XIX.

– Você precisa entender esse jogo da técnica fotográfica para poder ser fotógrafo. Eu sou minhas referências, minha sensibilidade, o que aprendi do mundo. Se você tem formação e referencias fotográficas, tudo muda de figura.

Diferentemente de Cecato, Emmanuel Lenain utiliza IA. Mas concorda com Cecato sobre a importância da experiência e da técnica fotográfica.

– As pessoas que farão um bom trabalho com IA são aquelas que já tiraram muitas fotos antes. Se você quer que a IA faça como você deseja, que siga um estilo, você precisa já ter seu próprio estilo. Eu pude impor meu estilo à IA porque já tinha fotografado muito antes.

Diplomata de carreira, embaixador da França no Brasil até pouco tempo, Lenain tem uma sólida produção fotográfica, documentando as transformações do mundo em fotos em preto e branco tão austeras quanto poéticas, como se pode ver nas duas imagens abaixo:

 

“Lavagem do Bonfim”, em Salvador, Bahia. Emmanuel Lenain
“Animais sem humanos”. Foto tirada na Antártida. Emmanuel Lenain

 

Memórias traumáticas recriadas por IA

Emmanuel Lenain utilizou a IA pela primeira vez no âmbito da exposição “As fotos que nunca foram tiradas”, que ele abriu no Paraty em Foco e que fica em cartaz até dia 13. Cerca de metade das imagens é feita com IA.

– Você não consegue distinguir o que é IA do que é foto – diz.

Ele parte de álbuns de fotografia da família para recriar memórias que não estão registradas pelas câmeras.

– Na maioria das vezes, essas fotos se limitam a imortalizar momentos agradáveis. Você raramente vê os momentos tristes ou difíceis, embora muitas vezes eles desempenhem um papel muito maior na formação de nossas personalidades e permaneçam gravados de forma bastante vívida em nossas memórias. A IA permite que você preencha algumas lacunas com imagens geradas a partir de nossas lembranças íntimas ou histórias familiares. Em vez de ser uma concorrente, ela se torna a ferramenta do fotógrafo em uma colaboração frutífera.

Algumas das imagens em exibição são fotos reais tiradas de álbuns de família. Outras são geradas por IA. Uma delas, que pode ser vista no alto dessa página, mostra uma cena que de fato aconteceu, mas que não foi registrada pelos aparelhos fotográficos da época.

– Meus pais tiveram a ideia, pouco condizente com as práticas modernas de educação, de passear com o filho turbulento na coleira, ou, mais precisamente, com um peitoral.

O fio condutor dessa exposição é o processo de aprendizado sobre autoridade e a evolução de sua relação com um pai muito exigente, mas “admiravelmente justo e profundamente amoroso”.

Dois outros exemplos presentes na mostra podem ser vistos abaixo. A primeira imagem retrata uma “foto oficial” do pai de Emmanuel Lenain realizando uma proeza atlética: uma escalada feita durante seus anos de estudante em Grenoble. O segundo caso retrata um momento nada edificante: uma imagem gerada por IA a partir de lembranças de Lenain recria a cena de quando ele tirou a cadeira debaixo de seu inimigo mortal — que havia se levantado para responder a uma pergunta. Ali, seu professores descobriram seu “caráter ruim” e o suspenderam temporariamente.

 

A foto verdadeira da escalada do pai de Emmanuel Lenain
A imagem gerada por IA de quando Lenain se vingou de um colega de sala

 

Mecanismos que certifiquem que a imagem é real

Um ponto em comum nas falas é a necessidade de ter mecanismos que apontem que aquela imagem é feita com IA, em especial no fotojornalismo.

– Foto é diferente da IA – diz Lenain. – Foto é algo que realmente aconteceu. É uma lembrança, uma memória. É a luz que incidiu sobre algo naquele instante preciso. É algo que a IA nunca conseguirá alcançar. Mas precisamos de algum processo para certificar de que foto é foto, e não IA. Porque quando você vê uma foto você acredita que é uma foto, que é real, que é como se fosse uma lembrança. Se você perder essa confiança, vai perder o prazer da fotografia. É muito importante, portanto, que tenhamos certos mecanismos e procedimentos que certifiquem que aquela imagem é real, não é alterada ou feita por IA.

Sergio Burgi reforça que é importante a visível identificação das imagens feitas por IA na hora em que são geradas.

– Hoje o pequeno grupo de big techs que controla estas ferramentas poderia com facilidade incluir no algoritmo a obrigatoriedade de clara e indelével identificação de imagens produzidas por algoritmo no momento mesmo de sua geração, o que por si só reduziria drasticamente este contexto atual de espetacularização, alienação, polarização e desinformação.

Mentira e realidade na tragédia

A proliferação de imagens sintéticas por inteligência artificial não impõe apenas um desafio estético à fotografia, mas uma disputa ética sobre a própria realidade, observa Michele Pucarelli. No Projeto LIEX (Laboratório de Imagens Expandidas da UFF), tem-se investigado como os novos motores generativos atingiram um nível de verossimilhança técnica capaz de falsificar o real de maneira quase imperceptível.

Ele ilustra com duas imagens da tragédia de 2024 no Rio Grande do Sul, que mostram uma ponte. De um lado, “a alucinação sintética gerada por Midjourney v6.1, com alto grau de verossimilhança fotográfica (a água barrenta parece água barrenta, o concreto partido parece concreto partido e as figuras ao fundo vestem coletes da Defesa Civil com coerência de contexto)”. De outro, uma foto feita por Carlos Macedo para a Folhapress, com o peso dos destroços reais. As duas imagens, a gerada por IA e a tirada pelo fotojornalista da Folha, podem ser vistas mais abaixo, na galeria de fotos.

– É exatamente por parecer tão real que a imagem gerada pela IA engana, desinforma e instrumentaliza golpes – diz Michele.

Relação com a verdade

Diante desse cenário, a pergunta crucial, diz ele, é: o que acontece com a memória coletiva quando abdicamos do ato de ser testemunhas oculares da história?

– Essa disputa pelo real não pode ficar restrita à pauta climática ou à denúncia de desastres. O conceito de soberania visual é, em sua essência, o direito inalienável de qualquer comunidade narrar a própria existência a partir do seu território. O simulacro algorítmico do Norte Global opera por um processo de assepsia: descarta o chão, a poeira e o atrito para gerar o que calcula ser o mais palatável – comenta Michele.

Ele ressalva que não se trata de demonizar a tecnologia, até porque a IA “tem contextos operacionais onde sua serventia é evidente”.

– Mas a documentação social e a memória coletiva exigem uma relação com a verdade e com a matéria que a máquina não alcança.

É o caso do fotojornalismo e da fotografia documental.

– O fotodocumentarismo pulsa no calor da hora, guiado pelo afeto, pela escuta e pela presença física. Afinal, o algoritmo calcula probabilidades estéticas no conforto do processamento, mas jamais será capaz de sentir aquilo que para nós é decisivo: o arrepio da pele. É exatamente aí que reside a fronteira ética e insubstituível da fotografia humana.

Michele ilustra sua fala com o “registro emblemático das pequenas bailarinas de tutu rosa descendo a ladeira da favela no Rio de Janeiro”, feito por Ana Carolina Fernandes, uma das principais fotojornalistas do país, que tem uma página dedicada a seu trabalho neste Testemunha Ocular

– É a antítese perfeita da IA: território vivo, presença do corpo, infância, fratura social e dignidade humana. Ana Carolina é uma presença fundamental do nosso fotodocumentarismo, cujos ensaios botam o corpo na linha de frente para revelar as fraturas sociais, a resistência dos territórios e a potência das margens.

Foto virou tatuagem

Michele se refere ao projeto Na Ponta dos Pés, ensaio fotográfico que Ana Carolina fez ao longo de anos no Complexo do Alemão, trabalho que já foi exposto até no Festival de Arles, na França. Uma das fotos mostra Tuany Nascimento, que ficou tão contente com o resultado que tatuou em seu corpo a imagem que Ana Carolina fez dela.

– Essa tatuagem foi uma das maiores emoções da minha vida fotográfica e da minha vida pessoal, porque a Tuany é uma pessoa muito especial para mim.

 

Tuany Nascimento, bailarina do Projeto Na Ponta dos Pés, no Complexo do Alemão

 

Envolvimento pessoal e cumplicidade

No caso dela, a IA não entra, claro, em nenhum de seus trabalhos como fotojornalista.

– A minha fotografia documental tem um envolvimento pessoal, emocional, espiritual até, de muito contato visual, de cumplicidade. Então, isso a inteligência artificial não jamais vai preencher. E nunca, pelo menos não até agora, a inteligência artificial consegue tatuar uma fotografia no corpo de alguém.

Tuany tatuou nas costas a foto que Ana Carolina Fernandes fez dela

 

Serviço

Festival: 22ª edição do Paraty em Foco

Tema: “Do grão ao pixel: 200 anos de fotografia”

Período: De 9 a 13 de setembro de 2026

Endereço: Os encontros acontecem no auditório da Casa da Cultura (@casadaculturaparaty), com capacidade para 150 lugares. Rua Dona Geralda, 194, Centro Histórico de Paraty (RJ)

Entrada gratuita

A programação completa pode ser acessada em www.pefparatyemfoco.com.br

As mesas têm transmissão simultânea no canal YouTube e no Instagram do Paraty em Foco (@pefparatyemfoco)

 

Mesa “Soberania visual: corpo, memória e território”

Debatedores: Ana Carolina Fernandes e Michele Pucarelli – UFF  @michele.pucarelli

Mediação: Sergio Burgi – IMS

Data: Quinta-feira, 10 de setembro de 2026, às 20h

 

Mesa “200 anos de fotografia: sobreviveremos à inteligência artificial?”

Debatedores: Emmanuel Lenain e Sergio Burgi

Data: Sexta-feira, dia 11 de novembro, às 20h

Exposição: “As fotos que nunca foram tiradas”, de Emmanuel Lenain

Local: Casa da Cultura, Sala Samoel Costa, Rua Dona Geralda, 194, Centro Histórico

 

Mesa “A morte da fotografia”

Debatedores: Roberto Cecato e Fausto Chermont

Data: Sábado, dia 12 de novembro, às 17h30h

 

A seguir, mais trabalhos dos participantes do Festival Paraty em Foco:

Imagem gerada por IA simula com verossimilhança ponte caída durante as enchentes no Rio Grande do Sul.
Foto tirada pelo fotógrafo Carlos Macedo/Folhapress nas enchentes do Rio Grande do Sul
Emmanuel quando bebê, no colo do pai: foto real tirada do álbum de família
IA recria momento doloroso do recital de flauta. Emmanuel Lenain era tão ruim que pediam que não soprasse o instrumento
Tenzin Rabten Rinpoche, lama tibetano de 3 anos fotografado por Roberto Cecato em Milão em 1991. Revelação não uniforme do papel cria imagens únicas. Cada ampliação torna-se um original
Projeto Na Ponta dos Pés, no Complexo do Alemão. Foto de Ana Carolina Fernandes
Projeto Na Ponta dos Pés. Envolvimento emocional de Ana Carolina Fernandes que IA não vai preencher
Espírito do carnaval, 2006. Imagem de Fausto Chermont
Imagem criada por IA mostra o pai de Emmanuel Lenain conduzindo o filho travesso, o que de fato acontecia