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Cinquenta carnavais

MAURO VENTURA

Custodio Coimbra não tinha nem 20 anos quando tirou suas primeiras fotos do carnaval carioca. Mas especificamente dos clóvis – também chamados de bate-bolas – que saíam às ruas de Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. As turmas de homens mascarados e fantasiados de palhaços assustadores são uma tradição carnavalesca do subúrbio carioca. Naquele ano de 1974, Custodio, nascido e criado em Quintino Bocaiuva, na Zona Norte, ainda estava longe de se profissionalizar, mas já se apaixonara pela maior festa popular brasileira.

– Desde que me entendo por gente, todo ano minha mãe me fantasiava para os bailes de carnaval no clube Quintino. Eram os momentos mais felizes da minha vida. Na juventude, eu sempre passava o carnaval em Pedra de Guaratiba, entre blocos de sujo, clóvis, piranhas e mascarados. Essa festa de criatividade e alegria popular sempre me contagiou. Eu ainda era estudante e fotógrafo autodidata quando comecei a registrar os blocos. Só adulto foi que percebi a grandiosidade da festa.

Desde esse início, há exatos 50 anos, Custodio não parou mais. Acompanhou todas as etapas do carnaval. Da fábrica de magia dos barracões até os desfiles na avenida, passando pelos ensaios das escolas de samba nas ruas e nas quadras.

Custodio é fascinado pelos mais variados momentos que envolvem o carnaval. Momentos esses que englobam do começo do desfile no Sambódromo – “com o frio na barriga dos componentes das escolas aguardando na concentração, antes de entrarem na avenida” – até o fim da folia – “com a energia dos integrantes empurrando com as mãos os carros alegóricos de volta aos barracões”.

– Mas o que eu gosto mesmo é do tradicional carnaval de rua, suburbano, quando o cotidiano se transforma na alegria de fazer uma fantasia, e essa fantasia se transforma em arte.

Custodio já passou por poucas e boas. Registrou, por exemplo, o desfile histórico da Beija-Flor em 1986, com o enredo “O mundo é uma bola”, do carnavalesco Joãosinho Trinta, debaixo de um temporal. Viu carros alegóricos pegarem fogo, perdeu dois pares de óculos que se prenderam nas saias das baianas rodando.

Mas nada que o desanime. Neste carnaval, começou a trabalhar no dia 2 de fevereiro, registrando a saída do Céu na Terra pelas ruas de Santa Teresa. É o mesmo bloco que aparece na foto do alto dessa página, em foto feita por ele para o jornal O Globo em 2011. Também esteve na Cidade do Samba, fotografando crianças passistas e ritmistas, os chamados artistas do amanhã das escolas mirins do Grupo Especial.

– Tinha sambistas de apenas 2 e 3 anos. É incrível – espanta-se.

Esteve ainda na Mangueira, fotografando a bisneta de Nelson Sargento, um dos baluartes da verde-e-rosa, que morreu em 2021. Custodio pretende trabalhar todos os dias de carnaval, registrando a festa nas ruas. E não vai focar só os blocos e bandas da Zona Sul e do Centro da cidade. Vai principalmente para o subúrbio.

– Costumo fazer o mesmo trajeto: Madureira, Marechal Hermes, Bangu, Campo Grande, Pedra de Guaratiba e Pedra de Sepetiba.

Pedra de Guaratiba? Isso mesmo, ele estará mais uma vez de volta às origens, onde tudo começou, há 50 anos.

– A tradição continua.

Velha Guarda desfila na avenida Marquês de Sapucaí. Foto de Custodio Coimbra. 4/2/2008. O Globo
A chegada: componentes no trem a caminho da Marquês de Sapucaí para desfilar no carnaval. Foto de Custodio Coimbra. 11/02/2013. O Globo
A saída: terminado o desfile, integrantes da escola de samba levam de volta o carro alegórico para o barracão. Foto de Custodio Coimbra. 21/2/2007. O Globo
Ala das baianas da Mangueira. Foto de Custodio Coimbra. 21/2/2012. O Globo
Fantasias no Saara, tradicional ponto de comércio popular no Rio. Foto de Custodio Coimbra. 25/1/2012. O Globo
A Beija-Flor desfilou em 1986 seu enredo "O mundo é uma bola" debaixo de um temporal que não tirou a animação da escola. Foto de Custodio Coimbra. Jornal do Brasil.
Mascarados saem às ruas no carnaval de 1974 em Pedra de Guaratiba. Foto de Custodio Coimbra.
Foliã mascarada no carnaval de Pedra de Guaratiba, em 1974
Homem-Aranha vai ao mercado em Campo Grande, em 2006. O Globo